Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 29/10/2020

A Constituição Federal de 1988 - norma de maior hierarquia no sistema jurídico brasileiro - assegura a todos a saúde e o bem-estar. Entretanto, o aumento dos casos de consumo de remédios sem a orientação médica demonstra que os indivíduos ainda não experimentam esse direito na prática. Dessa forma, questões como o imediatismo social e o surgimento de superbactérias precisam ser tratadas no âmbito brasileiro atual.

Em primeiro plano, a busca pelo imediato leva o indivíduo à automedicação. A esse respeito, segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF) em 2019, a automedicação é um hábito comum a 77% dos brasileiros. Ocorre que com o advento da globalização e a chegada da internet tudo começou a se resolver de forma rápida, o que culminou no enraizamento da cultura do imediatismo. Dessa maneira, as pessoas além de serem induzidas pela publicidade farmacêutica, desejam resultados rápidos e fáceis, e com isso acabam não procurando um atendimento médico e preferem ingerir medicamentos por conta própria, colocando em risco a sua saúde. Assim, não é razoável que a falta de um programa de conscientização eficaz acerca do consumo desordenado de medicamentos exponha o indivíduo à medicamentos com efeitos adversos potencialmente graves.

De outra parte, a administração irrestrita de medicação pode favorecer o surgimento das chamadas superbactérias. Nesse contexto, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), pelo menos 700 mil pessoas morrem por ano devido à doenças resistentes aos medicamentos antimicrobianos. Acontece que a presença de antibióticos em dose inadequada e sem orientação médica, segundo a teoria neodarwinista, são capazes de selecionar a bactéria mais resistente e dificultar o tratamento da doença. Tal processo ocorreu com a bactéria KPC, a qual passou pelo processo de seleção natural e hoje se mostra um dos mais graves patógenos presentes no ambiente hospitalar. Por conseguinte, enquanto a automedicação se mantiver, o Brasil será obrigado a conviver com um dos mais graves problemas para a saúde dos indivíduos: as superbactérias.

Urge, portanto, medidas as quais erradiquem o uso inconsciente de medicamentos. Nesse sentido, o Ministério da Saúde deve, por meio das mídias governamentais e da participação de profissionais da saúde, debater a importância do senso crítico em relação à publicidade de medicamentos, a necessidade de um acompanhamento do médico e as consequências nocivas da automedicação, como a seleção natural de superbactérias. Essas iniciativas teriam o objetivo de motivar a sociedade civil a repudiar a administração autônoma de remédios e construir visão crítica sobre saúde nos indivíduos. Dessarte, o direito ao bem-estar será, de fato, garantido na prática, como prevê a Constituição Federal.