Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 13/09/2020
No filme Sem Limites é contada a história do escritor Eddie Morra, um jovem que decidiu utilizar um medicamento duvidoso a fim de melhorar sua performance na escrita. Fora da ficção, a prática da automedicação adotada pelo personagem é uma tendência real e atual e constitui um grave problema de saúde pública no século XXI. Com efeito, com o fito de reverter essa prática nociva, cabe analisar os impactos da “cibercondria” e o sucateamento do serviço de saúde como catalisador dessa problemática.
Em primeiro plano, a cultura da “cibercondria” potencializa o consumo de medicamentos de forma irresponsável. Segundo a fundação Imperial College Healthcare, de Londres, a “cibercondria” ou hipocondria virtual refere-se a pessoas que utilizam a internet para diagnosticar problemas de saúde. Nesse sentido, ocorre que essa facilidade de acesso às informações publicadas - muitas vezes de forma errônea - no meio virtual, bem como a obtenção de medicamentos de maneira facilitada, colaboram na perpetuação dessa cultura do autodiagnóstico e, por conseguinte, da automedicação. Exemplo disso é o dado levantado em 2016 pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ que aponta que 72% dos brasileiros tomam remédio por conta própria.
Em segundo plano, o serviço de saúde de má qualidade contribui no agrave dessa problemática. A esse respeito, o artigo 196, da Constituição Federal de 1988, garante a saúde como um direito de todos os cidadãos. Entretanto, o ineficiente serviço de saúde pública vai de encontro ao principio constitucional, uma vez que a pouca eficiência e estrutura sucateada dos hospitais impedem um atendimento eficaz e capaz de promover a assistência desejada. Dessa forma, uma vez que não há o acesso à saúde de forma plena, não é razoável que a automedicação surja como uma alternativa mais rápida e menos desestimulante que o serviço público ofertado.
Mediante o elencado, impende, pois, que é essencial reverter a prática maléfica da automedicação. Para tanto, cabe ao Ministério da Saúde, responsável por dispor de condições para a proteção e recuperação da saúde da população, elaborar campanhas de conscientização, por meio de vídeos informativos no intervalo da programação, a fim de alertar a população sobre os perigos da automedicação e seus impactos na saúde física e mental do indivíduo. Além disso, o Ministério da Saúde deve oferecer atendimento no estilo “drive-thru” nos postos de saúde, mediante parceria com alunos de medicina de instituições públicas e privadas, com o fito de agilizar o atendimento e garantir que dúvidas sobre medicações possam ser sanadas. Dessa maneira, talvez, o consumo de medicamentos por conta própria possa ser realidade apenas na estória de Eddie.