Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 30/09/2020

Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, o escritor português José Saramago descreve uma epidemia de cegueira que, ao instaurar-se, intensifica vertiginosamente as adversidades sociais. Similarmente, na atualidade, uma cegueira moral impede que se enxergue a gravidade da automedicação sem amparo medicinal. Assim, devem ser analisados fatores sociais e psicológicos os quais corroboram a manutenção desse cenário deletério, a fim de que se possa mitigá-lo efetivamente.

Em primeiro lugar, a naturalização do processo em que os indivíduos fazem uso irrefletido de medicamentos é um fator a ser combatido. Segundo Hannah Arendt, no livro “Banalidade do Mal”, em sociedades cujos princípios não são periodicamente averiguados e questionados pelos indivíduos que a compõem, ações prejudiciais ao corpo social tendem a se normalizar. Sob essa ótica, a ausência de criticidade e de conhecimento sobre os malefícios sanitários a que a automedicação conduz torna tal fenômeno frequente e banal. Por conseguinte, infelizmente, ele tende a fincar raízes na comunidade, como a filósofa política postulou, pois não é combatido.

Em segundo plano, é importante considerar o papel da interiorizada pressão por desempenho imposta pelo sistema econômico vigente. Isso faz com que os indivíduos prescindam de consultar a um médico caso estejam doentes, uma vez que demanda tempo e dinheiro. Acerca disso, o sociólogo E. Durkheim teoriza que, com essa conjuntura de competição desmedida imposta pelo capitalismo, há a corrupção dos mecanismos os quais deveriam assegurar o equilíbrio social. Desse modo, a saúde deixa de ocupar a devida importância e é delegada a posições inferiores, o que evidencia a urgência da necessidade do enfrentamento por políticas públicas.

Portanto, é imprescindível que a automedicação infundada seja combatida. Para isso, o Ministério da Saúde, responsável pela manutenção sanitária em nível nacional, deve promover a criação de postos itinerantes que contarão com palestras de especialistas sobre os perigos à saúde que o ato em questão representa. Essas apresentações devem ser divulgadas nas mídias sociais para que obtenham um maior alcance. Ademais, os mesmos postos devem estar aptos a receber medicamentos das pessoas que se esclarecerem em relação ao tema e se dispuserem a abdicar desse ato deletério. Feito isso, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com a obra de Saramago será alcançada definitivamente.