Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 02/10/2020

O avanço científico e tecnológico tem proporcionado uma série de mudanças comportamentais, que passaram a afetar a dinâmica social em diversos aspectos. Nesse sentido, apesar dos benefícios trazidos, principalmente no âmbito informacional, uma enorme parcela da população assiste a uma série de danos, cujas consequências vêm reproduzindo, agora, um estado alarmante direcionado à saúde pública; fato este que, hoje, é potencializado pela recorrência da automedicação. Assim, percebe-se que o modo imediatista social e a inércia do aparelho estatal contribuem significativamente para a continuidade desse cenário.

Primeiramente, cabe ressaltar que o protagonismo das revoluções industriais, ao longo do período histórico, canalizou, com o avanço da rede informacional, a construção de hábitos contemporâneos direcionados, inclusive, a autodiagnósticos. Dessa maneira, é possível perceber que, embora a defasagem do sistema de saúde seja também veículo para a maximização desses atos, o problema da automedicação tornou-se reflexo principalmente de manifestações do indivíduo ligadas ao alívio imediato de algumas comorbidades, o que ocorre em maior escala entre pessoas de maior nível de escolaridade e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), possuem maior facilidade de acesso às informações. Entretanto, apesar das vantagens trazidas com o avanço da medicina e da indústria farmacêutica, os danos corroborados evidenciam consequências ligadas à dependência dessas drogas e a mutações de patógenos microbiológicos.

Ademais, o uso indiscriminado de medicamentos e o estabelecimento de “dianósticos virtuais” representam também o resultado de uma estrutura alienante oriunda da indústria capitalista. Desse modo, verifica-se que a baixa procura aos serviços hospitalares vem justificando o baixo investimento nesse setor, ao passo que a excessiva disponibilidade de fármacos no mercado permite ao consumidor a possibilidade de se tratar sem o acompanhamento de profissionais da saúde, estabelecendo, dessa forma, a construção de um quadro que posteriormente trará um potencial risco de incidência de doenças ainda mais graves.

Portanto, depreende-se que é dever do Estado, especificamente o Ministério da Saúde em conjunto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) direcionar investimentos que visem a manutenção de uma estrutura de fiscalização e controle efetivo na distribuição de medicamentos, promovendo, por meio da elaboração de projetos legislativos, o estreitamento do uso medicamentoso sem prescrição. Com isso, será possível visualizar um novo quadro social isento dessas ameaças à integridade coletiva.