Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 18/10/2020
Na série “Dr. House”, o médico Gregory House é o protagonista que, após um procedimento cirúrgico mal sucedido em sua perna, vê-se acometido por uma dor insuportável. Dessa maneira, ele passa a tomar compulsivamente um forte analgésico- o Vicodin- que é capaz de cessar o seu sofrimento. Fora da ficção, a realidade brasileira não se distancia dos costumes vividos pelo personagem. Assim, os hábitos da automedicação, resultantes de propagandas excessivas de medicamentos e da dificuldade de conseguir devida orientação médica, sobretudo, no sistema público de saúde, passam a configurar um grande problema.
Primeiramente, é válido ressaltar que os meios de comunicação são grandes influenciadores dos hábitos de uma população. Sob essa perspectiva, o filósofo francês Pierre Bourdieu caracteriza como uma tendência natural da sociedade incorporar as estruturas sociais que são impostas à sua realidade e a denominou. Dessa maneira, a população brasileira, que já possuía o hábito de se automedicar, teve o seu comportamento potencializado em decorrência da quantidade excessiva de propagandas referentes a medicamentos. Como conseguinte, a ingestão de remédios sem a prescrição médica pode acarretar problemas à saúde e, ainda, dificultar o diagnóstico clínico, porque os sintomas característicos de algumas doenças podem não estar devidamente manifestados.
Paralelamente, não obstante os esforços da Constituição da República, em seu artigo 196, de promover a saúde por meio de políticas sociais e econômicas, a realidade não é assim configurada. Diante disso, a sociedade se mostra distante do que impõe a norma constitucional, haja vista que a precariedade do Sistema Único de Saúde (SUS), não sendo possível suprir a demanda população. Assim, parte da sociedade se vê forçada a tomar remédios sem a devida recomendação médica, como forma de recorrer a resultados que aparentam ser mais úteis do que longas esperas em hospitais, que, por vezes, são incapazes de ajudá-los. Dessa forma, a quantidade de pessoas que se automedicam só tende a crescer, caso medidas públicas com o intuito de reverter essa situação não sejam aplicadas.
Fica evidente, portanto, que a problemática da automedicação no Brasil precisa ser combatida. Como forma de garantir isso, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com as prefeituras, criar propagandas relevantes quanto aos problemas da automedicação, que deverão ser veiculadas nos principais meios de comunicação de cada município, com o objetivo de criar senso crítico na sociedade. Ademais, faz-se necessária, também, a ampliação das clínicas de pronto-atendimento do SUS, a fim de facilitar e agilizar o atendimento médico e fornecer prescrições e diagnósticos às pessoas, utilizando-se, para isso, de maior aporte financeiro, a ser cedido pelo Ministério da Economia.