Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 07/11/2020

Dor de cabeça. Dor no estômago. Azia. Tais sintomas são apenas algumas formas de o corpo sinalizar que algo não está funcionando bem. Entretanto, com a cultura da automedicação em ascensão, o primeiro instinto, por vezes, é procurar uma solução mais rápida e fácil para o problema: o remédio. Dessa forma, são prementes discussões acerca dos impactos sobre a saúde física e mental dos indivíduos que fazem o uso inadequado de medicamentos na contemporaneidade.

Nesse contexto, Hannah Arendt, em seu livro “Eichmann em Jerusalém”, traz o conceito de “banalidade do mal”, para definir o ato de conviver com o mal e praticá-lo sem perceber, banalizando-o. Dito isso, na atualidade, o consumo de medicamentos sem qualquer critério médico está intricado no cotidiano de grande parte da população, banalizando esse mal. À vista disso, a facilidade de acesso, aliada ao imediatismo em buscar uma solução para suas dores e angústias, potencializam, de modo torpe, o desenfreado consumo de pílulas que conferem um rápido alívio ao organismo. Além disso, a rapidez do diagnóstico e a precisão do número de doses do medicamento encontradas nos sites de pesquisa, orientada pelo “Doutor Internet”, facilitam, infelizmente, o autoconsumo das substâncias. Logo, são inegáveis as consequências irreversíveis à saúde da deplorável prática de ingestão de medicamentos sem o acompanhamento do profissional de saúde.

Nessa perspectiva, parafraseando o médico Paracelso, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose.  Sob essa ótica, é basilar a cristalização do entendimento acerca da importância do equilíbrio consciente no consumo de medicamentos. Nesse viés, segundo a Organização Mundial da Saúde, as pessoas estão tomando remédios demais, e ainda tomando errado. Diante disso, o excesso de medicamentos pode desequilibrar o estado natural do organismo, ao alterar a concentração de substâncias, causando danos aos órgãos e tecidos. Nesse sentido, a solução mais fácil para o desconforto estomacal, por exemplo, é ir até a farmácia. Entretanto, a queimação estomacal pode ser a expressão da presença de bactérias maléficas.  Assim, é indubitável o poder do remédio para “maquiar” a exibição de dores que deveriam ser criteriosamente investigadas e tratadas por especialistas.

Depreende-se, portanto, que a crescente cultura da automedicação tem gerado efeitos negativos sobre a saúde da população. Desse modo, é imprescindível que o Ministério da Saúde financie campanhas nacionais com orientações sobre o uso racional de medicamentos, por meio da veiculação de propagandas que abordem as consequências a longo prazo do uso indiscriminado de remédios para a saúde física. Dessa maneira, a população passará a consumir pílulas de informação que previnem a automedicação.