Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 13/11/2020
Na obra “Diário de um adolescentes hipocondríaco”, escrita por Aidan Macfarlane, apresenta o drama um jovem garoto que, ao ter acesso a informações relativas a patologias, desenvolve hipocondria e recorre ao consumo de remédios sem prescrição médica. De maneira análoga a obra ficcional, hodiernamente, coloca-se em pauta os impactos da automedicação e a cibercondria no Brasil, tendo em vista os impactos negativos causados por esses fenômenos. Isso posto, cabe a análise acerca das estruturas socioculturais que permitem o surgimento da problemática nacionalmente, além da observação acerca do papel estatal na remediação dessa.
É relevante, destacar, primeiramente, que, em consonância com Sérgio Buarque de Holanda, as relações com caráter afetivo e identitário exercem influência maior sobre os brasileiros que as instituições do poder público. Sob essa perspectiva, ressalta-se um movimento de hierarquização informacional, em que os noções apresentadas em portais cibernéticos que fazem parte do cotidiano do cidadão, por amigos ou familiares, sobrepõem-se às investigações de especialistas sobre a saúde individual e coletiva da nação. Tal fato é registrado, por exemplo, durante o primeiro semestre de 2020, diante do estímulo, por parte de portais e influenciadores de extrema direita, ao uso da cloroquina na prevenção e tratamento da COVID-19, mesmo com a contraindicação de especialistas.
Paralelo a isso, de acordo com Thomas Hobbes o Estado é responsável pela promoção do bem-estar e orientação grupais, já que, em sua ausência, instaura-se o caos. Nesse sentido, ao serem registrados, segundo o Instituto Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), que 79% da população acima de 16 anos recorre à automedicação com frequência e busca por sintomas na Internet, revela o estado anômico instaurado na esfera de saúde pátria. Dessa forma é constatado o rompimento com diretrizes constitucionais, considerando que através da Carta Magna de 1988 é estabelecido o dever estatal de promover a aproximação — mediante projetos como Projeto Saúde da Família (PSF) — do sistema de saúde pública da realidade cotidiana do cidadão.
Portanto, diante da lógica hobbesiana, é necessária a ação de agentes governamentais para a re-mediação da problemática. Cabe, então, ao Ministério da Saúde, em ação intersetorial com o Ministério da Educação, deve propor, por intermédio de minicursos — dirigidos por professores de biologia, química e sociologia —, intervenções educativas nas comunidades, buscando elucidar os riscos da automedicação, demonstrando impactos biológicos e sociais desses fenômenos e instruindo os indivíduos sobre os projetos de saúde que atendem a comunidade, aproximando-os da prestação de serviços de saúde pública.