Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 09/11/2020
A descoberta da penicilina, por Alexander Fleming, em 1928, representou um avanço substancial para a Medicina. No entanto, com a popularização dos fármacos, sobretudo os antibióticos e analgésicos, e a sua utilização descomedida, o processo de ingerir medicamentos por conta própria tem se tornado uma patologia séria entre os brasileiros. Nesse contexto, apresentam-se como catalisadores dessa conduta não só a banalização acerca dos malefícios da automedicação, mas também a negligência estatal.
Inicialmente, é notório que o ato de consumir substâncias lícitas de modo indiscriminado está intimamente relacionado à trivialização dos efeitos dessa atitude. Nesse sentido, a desvalorização das recomendações médicas quanto à periodicidade de efetivação dos tratamentos com antibióticos, por exemplo, somado ao acesso descomplicado à compra de medicamentos, favorece a banalização e a generalização do consumo. Sob essa ótica, Pierre de Bourdieu, em sua obra Teoria do Habitus, reitera que a sociedade está propensa a naturalizar comportamentos ao longo do tempo, os quais tendem a se tornar hábitos. Logo, tal fato demonstra que a gradativa normalização da automedicação, além de ser um campo fértil ao surgimento de super antígenos, coloca em xeque os avanços da ciência pela má aplicação de suas descobertas..
Em segunda análise, é indiscutível que a automedicação também é condimentada pela diligência do Estado. Nesse viés, mesmo que a Constituição Federal garanta o direito à saúde gratuita e de qualidade, a má tutela dos recursos estatais direcionados ao SUS (Sistema Único de Saúde) contradiz essa premissa. Para ilustrar essa alegação, pode-se citar que, de acordo com uma pesquisa do Datafolha, 45% dos pacientes esperam mais de seis meses para acessar uma consulta com um especialista. Á luz desse panorama, a desestruturação da saúde púbica, permeada pela burocracia dos atendimentos e a falta de profissionais, favorece a administração autônoma e indiscriminada de remédios. Com isso, ilustra-se que o Poder Público não cumpre seu papel enquanto agente fornecedor dos direitos básicos à população, já que os direitos previstos por lei permanecem somente no papel.
A partir dos fatos propostos, torna-se evidente que a automedicação deve ser debelada. Para isso, o Ministério da Saúde deve criar um órgão com a finalidade verificar e assegurar a destinação de recursos ao SUS. Além disso, essa instituição deve produzir campanhas publicitárias, que serão divulgadas por meio da mídia televisiva, para divulgar a abordagem dos riscos desse ato, em busca da conscientização dos brasileiros. Ademais, essas providências devem ser subsidiadas a partir da destinação de recursos do governo federal . Com isso, será possível ocasionar a melhoria no bem-estar da população e, futuramente, auferir a problemática.