Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 18/11/2020

A minissérie dramática “O gambito da rainha”, original da Netflix, tematiza o impacto da automedicação sem orientação médica. Semelhantemente, na contemporaneidade, percebe-se o exacerbado consumo desses fármacos sem prescrição profissional, causando problemas ao bem-estar dos indivíduos. Assim, pode-se alegar que tanto o imediatismo e pressão social quanto a dependência desses medicamentos são importantes questões a serem debatidas.

Primeiramente, é notória a pressão da sociedade com o cidadão, para que esse mantenha progresso na sua rotina. Com isso, o filósofo contemporâneo Byung-Chul Han aponta a atualidade como uma “sociedade do desempenho”, haja vista a sua necessidade de contínua superprodução e super desenvolvimento. Portanto, é válida a relação dessa conjuntura com o imediatismo que o indivíduo, muitas vezes, já possui internalizado, de tal modo que, procure de forma rápida e, normalmente, sem acompanhamento médico, o auxílio de medicamentos para sanar essa carência social positivista. Essa situação problemática é agravada por um sistema de saúde, o qual é demorado e deficiente, contrariando o artigo 196 da Constituição Federal, de 1988, que garante a saúde como direito de todos e dever do Estado.

Ademais, vale destacar a subordinação a remédios quando a ingestão autônoma desses é rotineira. Partindo desse pressuposto, a minissérie “O gambito da rainha” apresenta a personagem Beth, que aos nove anos desenvolve dependência a fármacos relaxantes e, consequentemente, esse imbróglio a persegue por meio de distúrbios alimentares e falta de disposição. Fora da realidade, próximo a esse cenário, é vista a persistência de dependentes químicos, uma vez que o Estado visa, muitas vezes, a divulgação por mídias sociais e televisivas das consequências do uso a longo prazo, se esquecendo do fornecimento de amparos sociais a esses dependentes.

Destarte, urge que o Ministério da Saúde, em parceria com o Conselho Federal de Farmácia, atue por meio de ferramentas midiáticas com o auxílio de depoimentos de formadores de opiniões - como artistas e profissionais da área -, em campanhas de cunho publicitário e informativo, relatando, assim, os impactos da automedicação a longo prazo. Além disso, é necessário que  Estado atue por meio do Sistema Único de Saúde, na assistência dos casos já existentes de indivíduos envolvidos em vício do uso inadvertido de remédios, para que o cenário presenciado em “O gambito da rainha” não persista na contemporaneidade.