Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 24/11/2020

A série médica de televisão “House” aborda, entre outros temas, a dependência do protagonista Gregory House em analgésicos. O vício em remédios é um dos perigos de seu consumo sem o acompanhamento de um profissional de saúde, hábito conhecido como automedicação e praticado por mais de 70% da população brasileira, de acordo com o Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade. Tal fato representa grave risco de saúde para a sociedade e é estimulado pela deterioração do sistema público de saúde brasileiro e por propagandas inadequadas veiculadas pela indústria farmacêutica.

Em primeiro plano, a ineficiência dos estabelecimentos públicos de saúde do Brasil contribui para a cultura de automedicação no país, na medida em que a infraestrutura desses locais não é suficiente para atender toda a população. Segundo estudos do Conselho Nacional de Saúde, a dificuldade de obter atendimento faz a população buscar medicações para alívio rápido dos sintomas em vez de tentar marcar consultas, o que leva ao uso indiscriminado e desinformado dos fármacos. Dessa forma, o descaso dos órgãos públicos diante da decadência dos sistemas de saúde se mostra um entrave na mudança desse quadro.

Outrossim, as propagandas de medicamentos paliativos divulgadas pelas indústrias farmacêuticas são inadequadas e incentivam o aumento do consumo sem prescrição dessas drogas. Sobre isso, é aplicável o conceito de “Indústria Cultural” desenvolvido pelo filósofo Theodor Adorno, que consiste em um conjunto de práticas empresarias que objetivam influenciar a conduta dos cidadãos. Nessa lógica, em suas propagandas as empresas de fármacos visam convencer o receptor a comprar o produto em vez de informá-lo sobre os riscos e efeitos que os remédios têm no organismo, priorizando o comércio em relação a saúde dos consumidores e favorecendo a perpetuação do problema de automedicação no Brasil.

Em vista disso, se faz necessária a adoção de medidas pelo poder público brasileiro que pretendam mitigar essa problemática no país. Logo, cabe ao Ministério da Saúde, em conjunto com o Ministério da Economia, propor medidas que destinem verbas para a ampliação da capacidade de atendimento de unidades básicas de saúde pelo Brasil, facilitando o acesso da população a orientação médica, assim desestimulando a busca por tratamento de forma independente. Ademais, o Poder Legislativo deve propor leis que regulem a propaganda de medicamentos no Brasil, tornando obrigatória a presença de um especialista que explique em linguagem acessível o funcionamento dos remédios e seus efeitos colaterais, para que o consumidor, então alertado sobre os possíveis riscos, esteja mais inclinado a buscar profissionais de saúde antes de se medicar por conta própria.