Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 15/12/2020
De acordo com o livro Desafios da Nação, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao longo de toda a história brasileira, diversos entraves foram encontrados na tentativa de desenvolvimento da nação. Infelizmente, dentre eles, destaca-se, devido à sua recorrência na conjuntura atual, a automedicação no Brasil, pois, segundo dados da Fundação Cima´s a intoxicação medicamentosa gera 29% dos óbitos no país. Nesse contexto, a partir de uma análise desse impasse, percebe-se que ele está vinculado não só a influência de hábitos culturais, mas também a inoperância do Estado no enfretamento da questão.
Em primeiro plano, a inoperância estatal é a principal responsável por esse imbróglio. Em sua teoria do contrato social, Rosseau afirmou que é necessário um poder político, efetivamente comprometido com o bem-estar da sociedade. No entanto, é evidente o rompimento desse contrato pelo Estado, devido ao restrito acesso aos serviços gratuitos de saúde, o que torna, tristemente, um ambiente de desesperança. Assim, as longas filas de espera por uma consulta médica, a precariedade infra estrutural dos espaços de saúde e a carência de profissionais qualificados legitimam a auto dosagem de fármacos como caminho mais acessível, na maioria das vezes, à solução de enfermidades – condicionando, consequentemente, riscos de dependência e de intoxicação medicamentosa.
Outrossim, a influência de hábitos culturais colabora para perpetuação dessa mazela. Segundo a teoria sobre o ‘‘Habitus’’, do sociólogo Pierre Bourdieu, as estruturas sociais são incorporadas durante o processo de socialização. Nesse sentido, os comportamentos característicos de uma determinada época são naturalizados pela sociedade e, por consequência, reproduzidos ao longo das gerações. Desse modo, a autoadministração medicamentosa é uma reprodução de práticas seculares - haja vista a disseminação da cultura popular aos remédios naturais, posteriormente substituídos pelas produções da indústria farmacêutica. Nessa pespectiva, verifica-se, na geração atual, a automedicação como prática recorrente em diversas faixas socioeconômicas.
Portanto, é necessário o Ministério da Saúde proporcione a criação de um Programa Nacional de Combate à Automedicação, com o objetivo de promover o enfrentamento ao consumo de medicamentos sem prescrição médica, por meio das diversas mídias (eletrônicas e virtuais - com publicidades e ficções engajadas, protagonizadas por profissionais da saúde) com o propósito de promover um discurso voltado aos riscos presentes nesse consumo, de maneira a sensibilizar a população sobre a urgente mudança de hábito. Logo, a aplicação dessas medidas será capaz de superar os desafios da nação inerentes à automedicação.