Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 30/12/2020

Na série " O gambito da rainha", da Netflix, a personagem principal, constantemente, faz uso de ansiolíticos e calmantes sem a devida tutela, a fim de se sentir equilibrada emocionalmente. Por conta disso, em um dos episódios, a protagonista acaba sendo internada devido a uma overdose. Fora da ficção, a realidade não é tão diferente, pois, atualmente, a automedicação tem se tornado um grave problema. Essa questão tem raízes na intensa pressão social por produtividade, além de trazer graves consequências a curto e a longo prazo para os indivíduos que se automedicam.

Primeiramente, é importante destacar que a busca exacerbada por um maior desempenho, seja no trabalho, seja nos estudos, se configura como uma das causas dessa problemática. Nessa lógica, o filósofo contemporâneo Byung-Chul Han disserta, em seu livro “Sociedade do cansaço”, sobre a sociedade do desempenho, em que os indivíduos vivem em uma constante disputa, entre si, em busca de maiores resultados e conquistas. Nessa perspectiva, é notório que as pessoas, a fim de atingir seus objetivos mais facilmente e de reduzir essa competição, utilizam-se de drogas medicamentosas como forma de impulsionar esse processo. Isso é demonstrado no documentário “Take your pills”, em que são mostrados jovens que usam remédios de forma indiscriminada com o fito de aumentar a concentração nos estudos e, com isso, adquirir melhores resultados em exames e trabalhos acadêmicos.

Ademais, observa-se, consequentemente, que o uso sem a devida prescrição e orientação médica de substâncias farmacológicas pode trazer graves efeitos à vida do indivíduo. Nessa esteira, de acordo com o Dr. Drauzio Varela, em entrevista ao Fantástico, a curto prazo, vê-se que alguns fármacos, usados rotineiramente pelos brasileiros, como o Paracetamol, possuem um grande potencial toxicológico, podendo causar reações inflamatórias adversas, por exemplo, a disfunção hepática. Já a longo prazo, a automedicação pode trazer consequências, muitas vezes, irremediáveis, como a dependência ou a própria morte, haja vista os casos envolvendo artistas famosos, a exemplo do Elvis Presley, Merilyn Monroe e Michael Jackson,que morreram por causa do uso indisciplicado de remédios.

Sendo assim, com vistas a conscientizar e a alertar a população acerca dos problemas relacionados ao consumo indevido de medicamentos por conta própria, o governo federal, em parceria com o Ministério da Saúde, deve elaborar campanhas de orientação, por meio de inserções publicitárias. Essas campanhas devem ser veiculadas em emissoras de televisão, bem como em redes sociais. Além disso, é imprescindível, nessas campanhas, a participação de profissionais da área de saúde, como o Dr. Drauzio Varela e outros médicos formadores de opinião, que utilizem de uma linguagem simplista e esclarecedora. Só assim a sociedade se tornará mais consciente sobre os riscos da automedicação.