Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 05/01/2021

O conceito de entropia, da física, mensura o grau de desordem em um sistema termodinâmico. No entanto, fora das Ciências da Natureza, no que concerne à automedicação no século XXI, percebe-se a configuração de um cenário entrópico, em virtude do aumento no número de pessoas que a praticam. Diante disso, estratégias são necessárias para a resolução do problema, que possui como principais causas a insuficiência da legislação e a falta de investimentos em programas de saúde.

Em primeira análise, a insuficiência da legislação apresenta-se como um fator limitador à resolução do problema. O filósofo Maquiavel afirmava que mesmo as leis mais bem ordenadas são impotentes diante dos costumes. Nesse sentido, visando frear a automedicação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, publicou uma RDC, Resolução da Diretoria Colegiada, proibindo a venda de alguns medicamentos, como os antibióticos, sem a prescrição médica. No entanto, ratificando o pensamento do filósofo, é comum ver nas farmácias de todo o país, especialmente nas cidades menores, a livre venda desses insumos farmacêuticos, o que pode resultar em uma mutação de patógenos, como as bactérias, fazendo com que estes tornem-se resistentes aos fármacos.

Em segunda análise, a falta de investimentos em programas de saúde também mostra-se como uma questão a ser resolvida em busca da diminuição da automedicação. Segundo dados da Fundação Getúlio Vargas, a taxa de investimento no Brasil, somando os setores público e privado, está no seu menor nível nos últimos 50 anos, o que impacta diretamente no setor da saúde. É comum nos telejornais brasileiros denúncias de hospitais sucateados, falta de medicamentos e de médicos para toda a população, o que faz com que o povo busque na internet drogas para seus sintomas, sem que estas sejam prescritas por um profissional qualificado. Como consequência disso, uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz de 2015 mostrou que naquele ano, no Brasil, cerca de 23 mil pessoas morreram em decorrência de superbactérias.

Portanto, medidas urgentes são necessárias para alterar o cenário entrópico em questão. A ANVISA deve fortalecer as inspeções nas drogarias de todo o país, principalmente das cidades interioranas, cenário principal da venda de medicamentos sem a receita médica, através de visitas surpresas nas farmácias, conferindo a quantidade de insumos vendidos e suas receitas, punindo os farmacêuticos responsáveis pela venda incorreta, a fim de que os profissionais da saúde parem com a prática delinquente. Além disso, o Ministério da Saúde deve investir mais recursos nos programas de saúde do país, garantindo que haja médicos, medicamentos e espaços para atendimento médico em todo território nacional, diminuindo assim o número de pessoas que procuram medicamentos na internet.