Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 12/01/2021

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. A afirmação atribuída à filósofa francesa Simone de Beauvoir, pode ser facilmente aplicada à situação da automedicação vivenciada no Brasil, ao considerar que mais danoso do que sua ocorrência é o fato da população estar habituada a essa realidade. Por conseguinte, não são raros os casos, em que milhares dos brasileiros em busca de resultados rápidos negligenciam a ida ao médico para uma correta prescrição de medicamentos, o que representa nociva aplicação do autocuidado. Com efeito, há de se deliberar sobre a desigualdade social e sobre a complacência do Sistema Único de Saúde.

É válido pontuar, de início, que a desigualdade social representa um dos maiores desafios para a manutenção da automedicação no País. A esse respeito, o escritor Machado de Assis disserta de não ser verdade que o Brasil esteja progredindo rumo a ser uma sociedade igualitária. Nessa visão, a população carente é a que mais sofre com a insuficiência de renda para ir regularmente ao médico, visto que, nesse caso, a saúde não é um direito e sim um privilégio das altas classes da sociedade, o que representa grave mazela social. Assim, é incoerente que, autoridades brasileiras, sejam indiferentes quanto ao acesso igualitário da saúde na nação.

De outra parte, a morosidade do SUS figura como outro desafio da questão. Nessa lógica, o geógrafo Milton Santos, no texto “As cidadanias mutiladas”, afirma que a democracia só é efetiva quando atinge a totalidade do corpo social, em que os direitos são universais e desfrutados por todos. No entanto, ao verificar a situação do SUS, no Brasil, nota-se que há incompatibilidade entre demanda e oferta. Nesse sentido, substancial parcela da população não desfruta dos serviços da assistência à saúde básica por estar superlotada, o que se configura uma negligencia do Estado com a população. Assim, persiste, no Brasil, uma das maiores afrontas, conforme denunciado por Santos, a um Estado Democrático de Direitos: a precarização do SUS.

É mister, portanto, que esse cenário seja combatido no país. Para tanto, a escola – instituição responsável pela formação cidadã -, deve, por meio de workshops e palestras, veicular conteúdos capazes de desestimular a automedicação, trazendo à luz os efeitos nocivos dessa prática. Essa iniciativa no ambiente acadêmico estudantil favorecerá o desenvolvimento da mentalidade desses alunos, instruindo-os quanto a necessária ida ao posto de atendimento médico. Feito isso, muito em breve, a escandalosa prática da automedicação, conforme delata Beauvoir, será atenuada com base na difusão do conhecimento.