Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 23/02/2021
Em um de seus mais célebres artigos “Exaustos-e-correndo-e-dopados”, a colunista brasileira Eliane Brum disserta sobre a condição de autoexploração na contemporaneidade, na qual o indivíduo recorre até mesmo ao “doping”, isto é, o consumo de drogas, lícitas ou não, para uma melhora no desempenho nas atividades cotidianas. Nesse contexto, torna-se pertinente a discussão acerca da ingestão de medicamentos por conta própria, sem orientação médica adequada, e suas implicações na coletividade. Desse modo, faz-se necessária uma análise sobre como o imediatismo presente na sociedade brasileira, em conjunto com a omissão governamental, elenca-se enquanto agente principal dessa temática, bem como os malefícios na própria saúde dos consumidores.
Em primeiro plano, é válido ressaltar como o consumo de modo imediato alicerça o uso de remédios sem supervisão apropriada. Isso ocorre porque há, hodiernamente, uma busca em se resolver o mais rápido possível situações de desconforto, como dores de cabeça, tendo em vista uma procura ainda maior por produtividade, ou seja, por se produzir – seja em ambientes escolares, seja em âmbitos laborais – em um menor espaço de tempo. Esse panorama pode se relacionado com a sociedade do cansaço, conceito utilizado pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, na qual as pessoas internalizam a exploração e passam a querer render cada vez mais, de forma a se recorrer até mesmo a mecanismos como o citado no artigo de Brum. Ademais, o sucateamento do serviço público de saúde brasileiro, fruto inegável de uma negligência do governo, contribui para esse quadro, uma vez que, devido a baixa qualidade do atendimento, junto com uma maior demora em filas, por exemplo, torna-se mais prático automedicar-se.