Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 24/04/2021

Na célebre série norte-americana, “Gray’s Anatomy”, Lauren Hammer é uma paciente que se dirige ao hospital com um desconforto estomacal. Ao longo da consulta, Lauren revela que, após pesquisas no “Google”, ingeriu medicamentos para combater um suposto câncer de estômago. Fora da ficção, é fato que os brasileiros, apesar da maioria não ser Hipocondríaca como a senhora Hammer, adquiriram o mau hábito de se automedicarem movidos por pesquisas na internet ou por uma pressão socioeconômica. Dessa forma, a facilidade no acesso a conhecimentos técnicos da saúde, e o imediatismo nas relações sociais, dificultam o combate contra a automedicação no Brasil.

Convém ressaltar, a princípio, que o livre acesso a conhecimentos médicos proporcionados pela internet está entre as principais causas do problema, visto que, ao ter esse primeiro contato, muitas vezes, o paciente deixa de procurar um especialista. Sob essa ótica, a crítica de Shonda Rhamires no episódio da paciente Lauren é assertiva, pois apresenta as consequências que uma automedicação pode causar. No episódio, a enferma após ingerir antibióticos, um remédio comum entre os brasileiros, possui dores estomacais devido ao fato da medicação ter eliminado não só as bactérias patogênicas, mas também as bactérias que eram benéficas ao seu intestino. Desse modo, a aceitação de todo esse conhecimento sem supervisão de um médico, faz com que o indivíduo coloque em risco a sua própria saúde.

Ademais, saliente-se, o imediatismo nas relações pessoais como mais uma das causas dessa problemática, uma vez que, com a falta de tempo, o enfermo busca um alívio instantâneo para a sua dor. Nesse sentido, o filósofo Byung-Chul Han, em sua obra “Sociedade do Cansaço”, afirma que passamos de uma sociedade repressiva, em que os indivíduos eram constantemente vigiados e punidos, para uma sociedade do desempenho, em que cada um acredita na ilusão de tudo poder. Sendo assim, o sujeito contemporâneo torna-se ele mesmo o seu feitor e cobra de si a máxima eficiência em cada uma de suas ações, mesmo que para isso, seja necessário se automedicar a fim de manter sua produtividade.

Portanto, indiscutivelmente, ações são necessárias para diminuir os índices de automedicação no Brasil. Assim sendo, o Governo em parceria com o Ministério da Saúde deve organizar campanhas informativas e de alerta, veiculadas na mídia televisiva, radiofônica e impressa, que traga especificamente relatos e depoimentos de formadores de opinião a exemplo do Doutor Drauzio Varella que, a partir de uma linguagem compreensiva, aborde a gravidade de tomar remédio por conta própria.