Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 15/05/2021

No livro “Memórias póstumas de Brás Cubas”, do escritor brasileiro Machado de Assis, o narrador, Brás Cubas, idealiza a criação de um emplasto capaz de curar qualquer doença, ou seja, um medicamento para ser usado sem prescrição médica. Analogamente à obra literária, na realidade da sociedade hodierna, a automedicação é presente. No entanto, essa prática constitui um problema com possíveis efeitos prejudiciais, e, por isso, fica evidente que a reflexão acerca do estilo de vida social e a superação da desinformação tornam-se imprescindíveis.

Primeiramente, é fundamental ressaltar a urgência do debate sobre os hábitos sociais em relação à automedicação. Um exemplo da necessidade dessa discussão é pressão que existe no modo de vida coletivo por um determinado desempenho a ser atingido, como é retratado no documentário “Take your pills”, da Netflix, já que o uso crescente de remédios para aumentar a produtividade afeta a vida de milhares de pessoas. Esse comportamento é explicado pelo sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro “Sociedade do Cansaço”, como um adoecimento causado pela busca em cumprir metas e atingir padrões de trabalho. Assim, o indivíduo exerce tarefas à exaustão, o que resulta em um ciclo de consumo de medicação sem orientação médica. Dessa maneira, é indubitável que mitigar essa tendência no estilo de vida dos cidadãos faz-se mister.

Outrossim, cabe também destacar que a falta de conhecimento da população no que tange às adversidades do consumo de medicação sem assistência adequada deve ser combatido. Isso se explica pelo fato de que o uso indiscriminado de diversos fármacos pode causar consequências sérias, por exemplo, a intoxicação por paracetamol, em razão do medicamento, apesar de popular, ser hepatotóxico. Nesse contexto, essa idiossincrasia de desinformação que acomete os cidadãos pode ser considerada um “fato social patológico”, conceito teorizado pelo filósofo francês Émile Durkheim, em razão de ser um padrão social de comportamento que, muitas vezes, é nocivo. À luz disso, é inegável que superar esse desconhecimento acerca dos malefícios da automedicação é de extrema importância.

Em face do exposto, portanto, faz-se pertinente medidas para diminuir os atos de medicação não supervisionada. Logo, compete ao Ministério da Saúde, em parceira com o Conselho Federal de Medicina, criar campanhas de alerta, por meio de propagandas divulgadas em veículos midiáticos, com a participação de formadores de opinião, como o eminente médico Dráuzio Varella, a fim de, mediante linguagem compreensível à população, promover o conhecimento dos efeitos danosos da automedicação.