Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 20/05/2021

Na 5ª temporada do drama médico americano, Greys Anatomy, uma paciente é submetida a um transplante fecal após ficar doente devido ao uso indiscriminado de antibióticos. Fora da realidade ficcional, verifica-se que que a cultura da automedicação é amplamente enraizada nas práticas sociais. Nesse sentido, frente a negligência coletiva e a inexpressividade da administração pública, constata-se uma grave problemática no sistema de saúde que deve ser solucionada em caráter de urgência.

Em primeiro plano, é válido mencionar que segundo o sociólogo francês Edgar Morin, a forma como hoje produzimos conhecimento produz também a ignorância. Análogo a isso, ao se avaliar a fundo as causas do problema, observa-se que a descentralização de informações em ambiente virtual, proveniente do fenômeno da globalização, configura-se como extremamente relevante, uma vez que segundo dados do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade, 40% dos pacientes fazem autodiagnóstico pela internet e, consequentemente, também se automedicam. Desse modo, apesar das vantagens trazidas com o avanço da medicina e da indústria farmacêutica, bem como a facilidade de acesso às informações, tal ação corrobora com as consequências ligadas ao aumento da dependência dessas drogas e a mutações de patógenos microbiológicos.

Ademais, a Constituição Federal Brasileira, através do artigo 196, atribui ao Estado a função de garantir o Direito fundamental a Saúde mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e o acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. Contudo, os investimentos escassos nesse setor e a grande disponibilidade de fármacos no mercado permite ao consumidor a possibilidade de tratamento sem o acompanhamento médico, onde ignora-se, dessa forma, o potencial risco do agravamento do quadro clínico. Nesse viés, a permanecia desse panorama demonstra o descompromisso público em assegurar as garantias constitucionais, indicando a utopia social presente na Carta Magna.

Diante disso, torna-se necessária a implementação de medidas a fim de abonançar as consequências desse cenário antagônico. Sendo assim, é dever do Estado, através do Ministério da Saúde e do Órgão de vigilância sanitária, estreitar as medidas de fiscalização da distribuição e venda de medicamentos, tornando, por meio da elaboração de projetos legislativos, abstrusa a obtenção de fármacos sem receitas médicas. Outrossim, é de extrema importância rever a veiculação de propagandas de remédios nos principais recursos midiáticos, tendo em vista seu enorme poder de persuasão e incitação do consumo, substituindo-as por campanhas que alertem acerca dos riscos do uso indiscriminado dessas drogas, minimizando os possíveis danos a população.