Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 28/05/2021

Sob a perspectiva filosófica de Platão, o importante não é viver, mas viver bem. Apesar da legitimidade de tal afirmação, no Brasil, observa-se que a prática deturpa a teoria, uma vez que ainda existem entraves a serem superados no que tange à automedicação no século XXI. Isso se deve, essencialmente, ao cotidiano acelerado da pessoas e à má influência midiática.

Diante desse cenário, é imperativo pontuar que o estilo de vida atual contribui para à automedicação. Acerca disso, o filósofo Gilles Lipovetsky – em sua teoria da Hipermodernidade – afirma que o sujeito hipermoderno não tem tempo senão para suprir as demandas produtivas. Sob essa ótica, nota-se a acentuação dos mecanismos capitalistas de produção, o que significa, para o homem, magnificação do trabalho em detrimento de sua integridade física. Consequentemtene, substancial parcela da sociedade prefere não atrapalhar os compromissos de trabalho em virtude de dores físicas, o que leva a optar por um medicamento específico que vai resolver o problema momentaneamente. Logo, a automedicação é uma consequência do próprio sistema social, levando a população a uma menor qualidade de vida, haja vista a tendência de demora nos diagnósticos de possíveis doenças.

Além disso, vale ressaltar o poder da mídia nas escolhas dos indivíduos. A esse respeito, o filósofo norte-americano Noam Chomsky - em sua obra “Manipulação do Público - afirma que os vieses sistêmicos dos meios de comunicação distorcem as notícias para o atendimento dos seus fins essenciais. Essa máxima materializa-se na medida que a imprensa insiste em fazer uma publicidade abusiva nos medicamentos – com linguagem sugestiva e apelos sensoriais –, passando a sensação de que a compra de tal produto vai resolver todos os impasses, a fim de movimentar milhões para a indústria e, como o dinheiro é um “fim essencial”, tais atitudes persistem no país. Nesse contexto, a mídia, ao invés de promover debates que elevem o nível de informação das pessoas sobre a saúde, influencia na consolidação do problema. Desse modo, enquanto o culto ao capital for a regra, os cidadãos serão obrigados a conviver com a automedicação.

Portanto, são essenciais medidas operantes para a reversão da automedicação no Brasil. Nessa lógica, cabe ao Ministério da Saúde - órgão responsável por efetivar processos relacionados à saúde pública - informar a população sobre os malefícios da automedicação, por meio de postagens nas redes sociais, como facebook e instagram, com o fito de diminuir o índice de consumo de medicamentos sem necessidade. Paralelamente, o Congresso Nacional deve formular leis que limitem esse assédio comercial, a partir de direitos e punições aos que descumprirem, a fim de acabar com essa imposição midiática. Assim, tornar-se-á possível construir uma sociedade elencada com os princípios de Platão.