Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 15/06/2021

O mundo vivenciou, a partir do início do século XX, uma revolução terapêutica e medicamentosa advinda, principalmente, da descoberta da penicilina e dos anestésicos de grande eficácia. Conquanto, a despeito da ampliação do acesso ao uso de fármacos, a automedicação tem se tornado um grave problema de saúde pública à medida que se pauta justamente no baixo senso crítico da população e no apelo da indústria farmacêutica, com consequências para a saúde individual e coletiva. Não obstante, faz-se imperiosa a análise dos fatores que favorecem esse quadro.

Em primeiro lugar, vale salientar que a sociedade atual vive um período de “hipermedicalização”. Nessa conjuntura, a grande disponibilidade de fármacos sob a forte mão da indústria farmacêutica compete para o que Adorno denominou de “indústria de massa”, ou seja, utiliza-se da modelagem de práticas sociais para objetivos puramente financeiros. Nesse caso, para o consumo irracional de medicamentos, um comportamento social de risco que desvaloriza os tratamentos médicos duradouros e fomenta o desenvolvimento de cepas resistentes, com perdas humanas e econômicas irreparáveis. É inconcebível que esse cenário continue a perdurar.

Por outro lado, o baixo senso crítico da população, resultado de uma educação obsoleta, alheia aos cuidados em saúde, reverbera na automedicação. Ademais, 77% dos brasileiros se automedicam, segundo um levantamento do Conselho Federal de Farmácia, e desses, 26% utilizam a internet para isso. Nesse contexto, o grande acesso a informações disponíveis, bem como o pouco debate sobre o tema, corroboram para consequências graves, como superdosagem, toxicidade, hepatite fulminante e dependência química. Logo, ao não discutir sobre o uso consciente de fármacos, escola e mídia se omitem na formação de uma geração capaz de lidar com as demandas em saúde e seus processos de educação.

É fundamental, portanto, que medidas sejam tomadas para a resolução dessa problemática. Assim, o Ministério da Saúde, juntamente com as escolas e as mídias digitais - principais atores desse processo – devem encabeçar a “Semana de Combate à Automedicação”, que vise o uso racional de medicamentos. Essa iniciativa aconteceria por meio de palestras nas escolas ao passo que se ocorressem campanhas midiáticas para promover conscientização em jovens e adultos. Tal ação teria o objetivo de promover não somente uma revolução terapêutica, como no início do século XX, mas, sobretudo, uma geração de sujeitos conscientes de seus cuidados em saúde e qualidade de vida.