Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 18/06/2021

A Constituição Cidadã de 1988 -norma de maior relevância do sistema jurídico brasileiro- assegura em seu 6ª artigo o direito à saúde como intrínseco a todos os indivíduos.  Entretanto, quando se percebe a perenização da automedicação na contemporaneidade, vê-se que tal prerrogativa jurídica é contestada, dificultando, assim, a universalização desse direito.  Dessa forma,  faz-se necessário mitigar o negacionismo científico do Estado e a postura omissa do tecido social para que se altere esse cenário.

Por um lado, o negacionismo científico do corpo público configura-se como o principal promotor da automedicação no Brasil.  Nesse viés, o escritor brasileiro Gilberto Dimenstein, em sua obra " O cidadão de papel", disserta que a cidadania é assegurada pelo Estado somente no meio teórico, no papel, e não no meio de ação, na prática.  Diante desse exposto, vê-se tal posicionamento de Dimenstein se concretiza na realidade, já que o corpo estatal ainda apresenta uma mentalidade que contraria as ideias ciêntificas, intensificando, assim, a criação de analfabetos funcionais -indivíduos manipuláveis e  ignorantes- que atribuem práticas que englobam o senso comum, como a automedicação, no seu cotidiano.  Logo, é importante que o Estado Brasileiro tome medidas mais eficiêntes para sanar tal posicionamento.

Por outro lado, é preciso apontar a omissão do corpo social como um dos causadores da automedicação na atualidade.  Nesse sentido, a filósofa judia Hannah Arendt, em sua obra “A banalidade do mal”, disserta que a pior maldade deriva da irreflexão.  Diante disso, nota-se que tal pensamento de Arendt é validado, visto que parte majoritária da população ainda adota uma postura de ignorância, pois permanece fazendo uso da automedicação sem nenhum acompanhamento médico e sem cuidados farmacológicos, por acreditarem, por meio de um senso geral, que qualquer medicamento pode resolver o seu problema, gerando, dessa forma, problemas de saúde no futuro -alergia, intoxicação, câncer.  Assim, é fundamental que o corpo social altere tal postura de irreflexão descrita por Arendt.

Portanto, é mister que o Ministério da Saúde -órgão promovedor  do bem-estar e da Saúde dos cidadãos brasileiros- desenvolva políticas públicas voltadas para a exclusão das práticas de automedicação no Brasil, por meio de campanhas e palestras em instituições de ensino -privadas e públicas- a fim de abordar a importância da atuação médica na prescrição dos medicamentos, ao invés da medicação tomada  indescritivamente pela própria população, descontruindo, assim, tal cenário aflitivo.