Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 04/08/2021

O filme “Réquiem para um Sonho” ilustra as consequências de um hábito corriqueiro na sociedade contemporânea: a automedicação. Na obra, uma das protagonistas, por estar insatisfeita com seu corpo, passa a ingerir pílulas de emagrecimento de forma exorbitante durante muito tempo. Essa atitude, todavia, gera efeitos avassaladores na personagem, que, após se tornar dependente dos fármacos, começa a perder a consciência e a ter alucinações, acabando, por fim, sendo internada. O drama da ficção elucida a importância da educação acerca do tema, sobretudo em países como o Brasil, onde a atitude de se medicar por conta própria está arraigada na cultura.

Em primeiro lugar, é importante salientar que a automedicação de parcela considerável da população brasileira — cerca de 77%, segundo pesquisa do Conselho Federal de Fármacia (CFF) — é oriunda do “jeitinho brasileiro”. O antropólogo Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro “Raízes do Brasil”, explicou a expressão que, neste contexto, é relacionada a forma pela qual os brasileiros lidam com os impasses do cotidiano, fazendo mais uso da emoção que da razão. Contudo, não levar o discernimento em conta na hora de se medicar por conta própria tem seus preços, já que o vício, a intoxicação e até mesmo a morte são fatores diretamente relacionados ao mau uso de drogas ilícitas.

Em segundo lugar, baseado em levantamento do CFF, há uma “overdose” de fármacias no país, isto é, há mais estabelecimentos que o necessário, fato que influencia diretamente na visão das pessoas para com esses lugares. Ao invés de centros de serviço público atentos à saúde do povo, as drogarias são vistas, por outro lado, como lojas, o que torna a venda de remédios, às vezes prejudiciais se utilizados por conta própria, muito mais fácil. Outrossim, não há conscientização suficiente sobre a pauta em diversos âmbitos, como na mídia ou nas escolas, razão por que a maioria das pessoas são mal-educadas sobre o tema.

À luz disso, de forma a mitigar o infortúnio, concerne ao Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério das Comunicações, a criação de propagandas que alertem as complicações causadas pela automedicação, enfatizando, concomitantemente, a importância da prescrição médica no tratamento de quaisquer doenças. Ademais, é imprescindível que haja, desde a escola, o esclarecimento sobre quando é ou não seguro atuar como “médico”, mesmo não o sendo. Portanto, com o fito de atingir esse objetivo, é fulcral que filmes como “Réquiem para um Sonho” sejam exibidos em aulas do Ensino Médio. Por fim, é de responsabilidade do Ministério da Educação a incorporação da expressão “jeitinho brasileiro” nas matérias escolares, com o propósito de aclarar os prós e, neste caso, os contras dessa filosofia que rege o Brasil.