Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 29/08/2021

O Artigo 196 da Constituição federal diz que a promoção da saúde é um dever do Estado, sendo este responsável não apenas pela recuperação dos indivíduos, mas também por sua proteção. Hodiernamente, entretanto, a utilização de medicamentos sem recomendação médica tem se apresentado como um grande problema de saúde pública no país. Essa questão é ocasionada pela omissão governamental e pela busca por paliativos em uma sociedade exausta, o que demanda ações conjuntas do Ministério da Saúde e dos conselhos federais de Medicina e de Psicologia.

Nessa perspectiva, esse quadro de consumo indiscriminado de remédios tem como uma das causas a displicência do poder público. Isso se dá porque o Estado é conivente com o uso de diversas substâncias medicamentosas ao permitir o livre acesso da população a esses compostos, além de não informar adequadamente sobre seus diversos efeitos colaterais. Entre os exemplos dessa problemática está o paracetamol – analgésico que pode causar hepatotoxicidade e que, assim como muitos outros analgésicos e anti-inflamatórios, dispensa receita médica para ser obtido. Então, o governo federal, ao não emitir alertas dos riscos dessas drogas à saúde, fere o papel de proteção da população a ele estabelecido pela Carta Magna do país.

Além disso, o excesso de autocobrança vivido na sociedade pós-moderna também tem papel decisivo nesse cenário. De acordo com o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, vive-se em uma “sociedade do cansaço” – marcada pela busca incessante de uma produtividade sobre-humana e pela tentativa de se alcançar resultados inatingíveis. Nesse contexto, os sintomas decorrentes dessa exaustão física e mental são constantemente remediados com o uso de medicamentos sem prescrição, desde analgésicos até antidepressivos e ansiolíticos. Dessa forma, os limites naturais do corpo cansado são desafiados e as causas reais desse problema, mascaradas.

Portanto, medidas urgentes devem ser tomadas para que a automedicação no Brasil deixe de ser uma prática tão frequente. Por isso, com o objetivo de limitar o uso indiscriminado de medicamentos, é preciso que o Ministério da Saúde, em parceria com o Conselho Federal de Medicina e com o Conselho Federal de Psicologia, elabore campanhas de alerta sobre os possíveis efeitos colaterais e os riscos de se automedicar. Essas campanhas devem ser veiculadas utilizando linguagem informal e por meio de anúncios televisivos e nas redes sociais, alertando especificamente sobre os sintomas típicos da exaustão física e psicológica e sobre a necessidade de se buscar ajuda profissional. Dessarte, o papel constitucional do Estado, de acordo com o Artigo 196, será cumprido.