Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 13/10/2021
O documentário “Mamãe Morta e Querida” conta a história real da jovem Gypsy Rose Blanchard, que passou a vida inteira acreditando ser portadora de diversas doenças que, na realidade, eram induzidas através de remédios por sua própria mãe superprotetora. Tal realidade não é incomum na contemporaneidade, haja vista o aumento do consumo desnecessário de medicamentos não só como substância com indicação terapêutica, mas também como uma solução para os problemas cotidianos. Esse cenário de medicalização da vida, iniciado com a higiene pública, ilustra o consumo cada vez maior de remédios sem necessidade pelos indivíduos.
Em primeiro lugar, as intervenções médicas ao longo da história apresentam íntima relação com a existência desse cenário. Isso porque, segundo o filósofo Michel Foucault, a medicalização foi um processo de sanitarização de importantes cidades europeias entre o final do século XVII e o final do século XIX com vistas à produção da salubridade e higiene pessoal. Com isso, tal movimento foi de suma importância para o desenvolvimento das cidades e para a erradicação de algumas doenças, no entanto, a medicalização acabou por impactar a humanidade negativamente, por meio de um controle social autoritário sobre o corpo e as condutas, o que corroborou para a extrapolação da ciência médica à vida como um todo.
Atrelado a isso, a expectativa em torno do papel a ser cumprido pelo medicamento passa a representar um instrumento para a indução e fortalecimento de hábitos voltados para o aumento do consumo. Isso porque, seguindo a lógica do filósofo brasileiro Leandro Karnal, o excesso de remédios é resultado de uma sociedade que não tolera a dor e deseja estar sempre no controle do que está à sua volta. Dessa forma, situações como a tristeza, sobrepeso e insônia são, atualmente, facilmente transformadas em doenças sendo rapidamente medicadas, o que corrobora para efeitos nocivo à saúde, como a dependência permanente a esses remédios.
Portanto, cabe ao Ministério da Saúde, por meio do Programa Saúde da Família (PSF), organizar campanhas anuais contra a automedicação. Tais campanhas deverão ser feitas nos postos de saúde em um mês do ano, com intuito de alertar a comunidade sobre os efeitos danosos do uso indiscriminado de remédios e promover hábitos de vida mais saudáveis, como o estímulo à atividade física e alimentação equilibrada. Só assim poderemos focar na saúde humana e não na doença criada, aumentando a dignidade de quem verdadeiramente está doente e em sofrimento.