Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 31/10/2021
Ao se averiguar o contexto social hodierno, depreende-se que, embora tenha sido intitulado como “país do futuro”, pelo filósofo austríaco Stefan Zweig, o Brasil tem seu desenvolvimento obstado pelas implicações da prática da automedicação. Funestamente, essa situação decorre, em grande parte, de duas consideráveis problemáticas: a lentidão dos atendimentos do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro e a demasiada valorização da produtividade na sociedade pós moderna.
Em primeira instância é fulcral considerar que, ainda que se trate de um direito assegurado pela Constituição Federal de 1988, o acesso à saúde de qualidade figura, muitas vezes, somente no plano teórico, conforme disserta o escritor Gilberto Dimenstein, em seu livro “Cidadão de Papel”. Isso ocorre porque, em razão da displicência governamental e da consequente escassez de investimentos na área da saúde pública nacional, muitos brasileiros optam pela automedicação para evitar, sobretudo, a ida aos precários estabelecimentos públicos de atendimento médico do país. À vista disso, torna-se notório que o sucateamento do SUS infringe o princípio democrático da dignidade da pessoa humana e se apresenta como um fator perpetuador desse nefasto cenário.
Outrossim, cabe analisar a problemática sob a ótica da “Sociedade do Cansaço” descrita pelo sociólogo sul coreano Byung-Chue Han. Segundo o estudioso, a incessante busca pela produtividade acarreta a exaustão dos indivíduos e o desenvolvimento de doenças e transtornos psicológicos. Nesse sentido, a fim de combater os sintomas decorrentes do cansaço físico e mental, muitos recorrem ao uso de medicamentos – como fortificantes de concentração, tonificantes de memória, analgésicos, antidepressivos e ansiolíticos – sem a recomendação de um especialista. Como consequência, além de sofrerem com os efeitos colaterais dos remédios, essas pessoas tendem a se tornarem dependentes dos fármacos, o que evidencia a premência da criação de medidas que visem a desmantelar a naturalização da cultura da automedicação na nação verde-amarela.
Diante do exposto, urge, portanto, ao Ministério da Saúde – órgão incumbido de garantir o acesso dos cidadãos à saúde pública em território nacional –, por meio de uma parceria com o Conselho Federal de Medicina, a criação de um projeto que destine verbas para o melhoramento das unidades básicas de saúde brasileiras e para a organização de campanhas socioeducativas que abordem a importância de profissionais no combate a doenças, a fim de conscientizar os cidadãos sobre os riscos da automedicação e garantir um tratamento público adequado a todas as enfermidades. Feito isso, será possível minimizar os problemas decorrentes dos efeitos adversos dos remédios e, desse modo, criar meios propícios para que a teoria de Zweig se torne realidade.