Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 18/11/2021
Na obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o protagonista revela o desejo de desenvolver uma substância que cure todos os males da humanidade, o “emplasto Brás Cubas”. Fora da literatura, é fato que a situação apresentada no livro pode ser relacionada ao hodierno cotidiano de muitos brasileiros que, em razão do imediatismo, buscam, paulatinamente, uma solução rápida e prática para seus problemas. Logo, são imperativas ações sociais e estatais acerca da automedicação em debate no século XXI, sob pena de prejuízos à saúde da população.
Em primeiro plano, é imperioso salientar que o imediatismo, materializado na tendência de agir em função daquilo que oferece vantagem repentina, -sem considerar consequências futuras- favorece o consumo indiscriminado de remédios por conta própria. Nesse contexto, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman afirma que “o ser humano pós-moderno substitui os projetos para o futuro pelo prazer instantâneo”. Com efeito, percebe-se que há, na conjuntura atual, a constante procura por uma solução, no caso a química, que afaste males temporários, como uma dor de cabeça, sem a reflexão, por exemplo, acerca da quantidade, da eficiência e da real necessidade do fármaco, o que pode ocasionar graves adversidades à saúde do indivíduo. Dessa forma, é notório a imprescindibilidade de uma mudança da postura do corpo social, com o escopo de posibilitar uma reflexão sobre a automedicação.
Ademais, é importante salientar um dos principais impactos dessa prática de maneira inconsequente: a taquifilaxia. Segundo o Formulário Terapêutico Nacional, documento instituído pelo Ministério da Saúde, tal impacto consiste na rápida diminuição do efeito de um fármaco com doses consecutivas, assim o organismo desenvolve uma tolerância em relação ao medicamento, propiciando a perda das propriedades dele e o surgimento de problemas indesejáveis. A título de ilustração, o uso incontido do remédio Paracetamol, utilizado largamente como analgésico, pode ocasionar infecções no fígado, devido a sua capacidade hepatotóxica quando ingerido em excesso. Desse modo, a divulgação de informações sobre os malefícios que a automedicação pode causar são essenciais.
Portanto, urge que o Ministério da Saúde, reponsável pela assistência à saúde dos brasileiros, invista, por meio de campanhas publicitárias, no esclarecimento sobre os malefícios da automedicação desregrada, como a taquifilaxia, e na discussão acerca da influência do imediatismo, denunciado por Bauman, na institucionalização desse hábito na vida dos cidadãos, a fim de propiciar a conscientização da população em relação à automedicação em debate no século XXI. Somente assim, poder-se-á contribuir para que os perigos da situação apresentada em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” não afetem a saúde do indivíduo.