Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 04/11/2022

No seriado norte-americano “House, M.D.”, o personagem homônimo realiza a ingestão frequente do opioide Vicodin, sob a falsa alegação de que busca aliviar suas dores físicas, com embasamento em seu trabalho como profissional da saúde. Longe da ficção, na realidade brasileira contemporânea, verificam-se atitudes semelhantes por parte da população, tendo em vista que a automedicação constitui uma problemática com severas consequências para a vida dos cidadãos. Esse impasse ocorre em decorrência do imediatismo hodierno, bem como a omissão estatal no que se refere à fiscalização da indústria farmacêutica.

Com efeito, deve-se pontuar que as relações sociais modernas se encontram em um estado de inconstância, guiadas pelo acelerado ritmo contemporâneo. Em sua obra “A sociedade do espetáculo”, o escritor francês Guy Debord disserta acerca da ascensão de uma sociedade influenciada pela mídia, que produz indivíduos alienados e pressionados pela performance de uma vida perfeita. Paralelamente a isso, o imediatismo contemporâneo projeta na população um efeito semelhante e, uma vez que não atingem suas metas, os cidadãos recorrem à automedicação, visando remediar as mazelas de suas dores psicológicas.

Ademais, é fulcral ressaltar também a omissão governamental perante a atuação da indústria farmacêutica. Em sua obra “Leviatã”, o filósofo inglês Thomas Hobbes ressalta a importância do Estado para a promoção do corpo social. Todavia, na sociedade contemporânea, ocorre a ausência de uma fiscalização adequada para com o comércio de medicamentos em estabelecimentos farmacêuticos, reforçando o cenário da automedicação, tendo em vista a facilidade presente para a obtenção dos fármacos.

Diante dos argumentos supracitados, torna-se imprescindível a atuação do Estado, por meio do Ministério da Saúde, visando a fiscalização de estabelecimentos farmacêuticos, e consequentes multas ou sanções àqueles que descumprirem a legislação vigente na obtenção de fármacos. Além disso, é preciso destinar as verbas obtidas, buscando a criação de centros de apoio psicológico gratuitos para a população, tratando suas mazelas psicológicas. Dessa forma, será possível o tratamento não somente das dores físicas, mas de todo o corpo social.