Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 10/11/2022

A filósofa francesa Simone de Beauvoir afirma que “o mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. De maneira análoga a isso, tem-se, infelizmente, a naturalização da automedicação na sociedade brasileira. Nesse contexto, destacam-se aspectos importantes que corroboram com a problemática, como a inoperância governamental e a invisibilidade do tema.

Sob essa ótica, é inegável que a negligência estatal, no desenvolvimento de políticas públicas de controle à automedicação, acentua gravemente o revés. A esse respeito, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman formulou o conceito “Instituição Zumbi”, o qual refere-se às instituições que deixaram de cumprir seu papel. Da mesma forma, o Estado, ao falhar na garantia de saúde e segurança da população, opera como zumbi, conforme a ideologia de Bauman.

Ademais, a carência de debates públicos sobre a medicação por conta própria, faz com que sua resolução se distancie de forma marcante, uma vez que acarreta a invisibilidade do assunto. Sob esse viés, o teórico francês Michel Foucault elaborou a construção “Hegemonia dos Discursos” para explicar como algumas teses se sobressaem a outras, resultando no silenciamento de pautas importantes. De modo semelhante, a automedicação, por ocupar uma posição insignificante na hierarquia foucaultiana, é apagada das discussões. Sendo assim, é inadmissível manter, em pleno século XXI, esse cenário perverso.

Portanto, mudanças são necessárias para resolver o impasse. Para tanto, o Ministério da Saúde deve, por meio de um projeto de lei entregue à Câmara dos Deputados, promover a fiscalização da venda de medicamentos - com a participação de profissionais da saúde na análise da necessidade dos remédios requeridos pelos cidadãos - além de articular campanhas que disseminem informações sobre o assunto, fomentando seu debate na sociedade, a fim de construir uma sociedade saudável e consciente.