Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 09/04/2023

O seriado televisivo Grey’s Anatomy retrata a situação de Betty, uma garota que, ao tomar um medicamento sem prescrição médica por um longo período, acaba desenvolvendo dependência à substância, interesse por drogas ilícitas e outros problemas de saúde. Análoga à ficção, está a realidade de milhões de brasileiros que optam por se automedicar e, posteriormente, sofrem por conta dessa escolha. Desse modo, a negligência do Estado, concatenada à banalização da confiança exacerbada no senso comum, solidificam tal estigma.

A princípio, é mister pontuar que a negligência estadual é assaz importante na concretização do óbice apresentado. De acordo com a Constituição Federal de 1988, a saúde é um direito social. Conquanto, o governo não atua em defesa dessa prerrogativa, haja vista que a automedicação, conduta existente em larga escala no Brasil, traz para os cidadãos riscos no que tange à manifestação de enfermidades, muitas vezes letais. Dessarte, é notório que o bem-estar previsto constitucionalmente não se faz efetivo na conjuntura do país, uma vez que o Estado se mantém negligente ao seu papel de assegurar os direitos dos indivíduos.

Ademais, a problemática se salienta na banalização do senso comum como fonte de conhecimento medicinal. Émile Durkheim defende que o “fato social” dita as regras de cada cultura, gerando padronização de comportamentos. O uso de informações provenientes de não-profissionais para decidir quais remédios tomar sendo banalizado se torna um fato social do tipo patológico, através do qual se decorrem problemas sociais, nesse caso, o aumento de brasileiros portadores de doenças que poderiam ter sido evitadas. Sendo assim, o ato de confiar cegamente no senso comum implica a consolidação de uma sociedade que se auto prejudica.

Portanto, medidas são necessárias para combater a automedicação no Brasil. Para isso, é irrefutável que o Ministério da Saúde, em parceria com as emissoras de televisão, disponibilize anúncios que orientem os indivíduos a não ingerir medicações que não foram prescritas por um médico. Essa ação deve ser feita por meio de propagandas em horário nobre e terá como fito o estabelecimento de um corpo social que não se automedica. Dessa forma o cenário abordado em Grey’s Anatomy não mais representará o dos brasileiros.