Automedicação em debate no século XXI

Enviada em 17/09/2023

O mito da caverna, de Platão, descreve a situação de pessoas que se recusavam a observar a verdade em virtude do medo de sair de sua zona de conforto. Fora da alusão, a realidade brasileira caracteriza-se com a mesma problemática no que diz respeito à automedicação, uma vez que a sociedade tem recorrido cada vez mais aos medicamentos sem prescrição médica. Nesse contexto, percebe-se a configura-ção de um grave problema de contornos específicos, em virtude da falta de conhe-cimento da sociedade e da omissão estatal.

Convém ressaltar, a princípio, que a educação deficiente sobre o tema é um fator determinante para a persistência da questão. Nesse sentido, o filósofo Scho-penhauer defende que os limites do campo de visão de uma pessoa determinam seu entendimento a respeito do mundo. Isso justifica outra causa do tópico: se as pessoas não têm acesso à informação séria sobre os riscos da automedicação, sua visão será limitada, o que dificulta a erradicação do problema.

Outrossim, a omissão estatal - na figura do Poder Legislativo - ainda é um gran-de impasse para a resolução da problemática. Segundo Umberto Eco, “Para ser tolerante é preciso fixar os limites do intolerável”. Nesse sentido, percebe-se uma lacuna normativa, explicitada pela falta de uma legislação adequada. Assim, sem base legal, ações de mitigação são impossibilitadas, o que acaba por agravar ainda mais a questão do uso irracional de remédios no Brasil. À luz disso, a Associação Brasileira de Indústrias Farmacêuticas aponta que ocorrem cerca de 20 mil mortes anualmente no país. Logo, urge que essas lacunas sejam fechadas.

Sendo assim, é indispensável a adoção de medidas capazes de assegurar a re-solução do problema. É fundamental, portanto, a criação de projetos de lei que contemplem a questão da automedicação, pelas comissões da Câmara e do Sena-do, em parceria com consultas públicas. Tais consultas devem ser amplamente di-vulgadas nas redes sociais, para o público em geral ter acesso e se posicionar. Além disso, em tais consultas, seria viável disponibilizar uma cartilha que contemple os detalhes da lei proposta, para que o controle de medicamentos não só ganhe res-paldo legal, como também o faça de maneira consciente por parte da população. Dessa forma, talvez, o universo mítico da caverna permaneça apenas na ficção.