Automedicação em debate no século XXI
Enviada em 09/03/2024
Embora, a Constituição Federal de 1988 assegure a saúde como direito de todos, percebe-se que, na atual realidade brasileira, não há o cumprimento dessa garantia, principalmente no que diz respeito à automedicação.Isso acontece devido ao silenciamento social sobre os malefícios da automedicação irresponsável, bem como a omissão estatal na precariedade do sistema de saúde.
Diante desse cenário, Jean-Paul Sartre afirma, em sua obra " O ser e o nada",que existe o conceito conhecido como “Acomodação Social” segundo o qual há alguns temas sociais que são banidos da discussão coletiva.Sob a lógica de Sartre, a discussão acerca dos malefícios da automedicação,embora seja importante para a sociedade brasileira, não recebe a devida importância,haja vista que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária calcula que 18% das mortes por envenenamento no Brasil podem ser atribuídas a automedicação, além disso os medicamentos em doses inapropriadas ou combinados a outros podem mascaras sistomas mais graves e diminuir as chances de cura retardando um dignóstico precoce. Assim é incoerente que o Brasil ainda conviva com o arcaico silenciamento sobre os malefícios da automedicação.
Ademais, a omissão estatal fomenta a cultura da automedicação. Nesse sentido, Noberto Bobbio, expoente filósofo italiano, desenvolveu o " Dicionário de Política", a partir do qual o estado deveria não apenas garantir os direitos básicos, a exemplo a saúde, mas também assegurar que a população usufrua deles na prática. Nesse entendimento, a precariedade do sistema de saúde com longas filas de espera, a dificuldade de acesso a postos de saúde, ainda mais se tratando de comunidades ribeirinhas, rurais ou povos originários, o uso de medicamentos sem prescrição médica se tornou uma saída para muitos.Desse modo, enquanto a omissão estatal for a regra, o sistema de saúde morosamente atenderá e alcançará a população.
É urgente, portanto, que o Ministério da Saúde e as escolas, responsáveis pela transformação social , discutam sobre os malefícios da automedicação, por meio palestras ministradas por profissionais de saúde nas escolas e comunidades, de modo a enfatizar o uso consciente dos medicamentos. Ademais, o Ministério da Saúde deve incrementar uma rígida fiscalização da frequência dos médicos e funcionários nos postos de saúde, com objeto de diminuir a longa fila de espera nos atendimentos por falta de profissionais, além disso, o investimento em tecnologia para atendimento remoto,via telemedicina, beneficiaria comunidades distantes dos postos de saúde. Essas iniciativas terão finalidade de mobilizar o Estado a minimizar os impactos da automedicação irresponsável e de garantir que a filosofia de Bobbio seja, em breve, a realidade brasileira.