Biografias não autorizadas no Brasil: até que ponto vai a liberdade de expressão?
Enviada em 05/05/2020
Metalinguagem Em Questão
De acordo com a famosa obra de Machado de Assis - Dom Casmurro- várias conjecturas são possíveis neste clássico a respeito das constantes desconfianças de Bentinho quanto a fidelidade de sua amada Capitu. Por se tratar de uma história contada apenas pelo próprio personagem, as circunstâncias apresentadas não são capazes de confirmar nada, uma vez que não há outro ponto de vista. Neste sentido, biografias não autorizadas acerca da história de outrem, ainda que sejam sustentadas pela liberdade de expressão, não são capazes de retratar de forma fidedigna a história real, tornando-se, assim, uma problemática.
Em primeira análise, a perspectiva da concretização de uma trajetória de vida por meio de um livro, tem a acrescentar em sociedade em diversos âmbitos, visto que é capaz de incentivar, tal como educar o público alvo a respeito de suas ideias abordadas. Sendo assim, é possível que uma simples modificação feita na produção de uma obra seja necessária para moldar o pensamento do leito que, de alguma forma , se identifica com a figura pública abordada. Desse modo, a inobservância governamental frente a isso permite que muitas vezes a população -carente de senso crítico - sirva como massa de manobra da indústria literária e cultural.
Por outo lado, a produção biográfica de forma não autorizada também tem impacto direto no personagem central da obra, podendo muitas vezes ser utilizada para denigrir a imagem deste. Seguindo este viés, a publicação desse tipo de material deveria contar com a ética daquele que escreve, no entanto, isso na prática não ocorre pois, segundo Arthur Schopenhauer, todas as ações do homem surgem do egoísmo. Dessa maneira, o escritor sacrifica sua ética e, assim, torna público aspectos da vida pessoal do homenageado de modo sensacionalista, pois visa apenas o sucesso da venda de sua produção.
Fica evidente, portanto, que no momento em que a liberdade de expressão atinge outro indivíduo e compromete questões coletivas, isso torna-se um problema a ser resolvido. Com isso, a Esfera pública, aliada ao Ministério da Cultura deve fiscalizar a produção de textos biográficos de modo que o escritor deva compartilhar sua obra com o personagem citado -ou, quando não vivo, a família - antes de sua publicação, com o intuito de evitar distorções do conteúdo. Além disso, a população deve refinar seu senso crítico por meio de pesquisas e entrevistas acerca do assunto abordado, para que possam tirar conclusões não precipitadas devido a influências de caráter duvidoso, assim como fez Bentinho.