Caminhos para combater a epidemia de crack no Brasil

Enviada em 07/01/2026

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Essa foi a frase escrita por José Saramago na obra Ensaio sobre a Cegueira. A história desse livro retrata a sociedade diante de uma epidemia marcada pela alienação e, enquanto a “cegueira branca” foi motivo de tanta brutalidade na ficção, o desemprego, a má qualidade da educação pública e a falta de políticas públicas eficientes no país contribuem para a perpetuação da epidemia de crack. Dessa maneira, é preciso discutir essa problemática para, assim, solucioná-la.

Nesse sentido, é válido ressaltar que a vulnerabilidade social é um dos fatores responsáveis pela disseminação do consumo de crack no Brasil. Segundo o geógrafo Milton Santos, a lógica da globalização excludente aprofunda desigualdades e marginaliza parcelas da população, criando espaços onde a ausência do Estado se faz presente. A precariedade do ensino público, somada à escassez de oportunidades no mercado de trabalho, limita as perspectivas de ascensão social, especialmente entre jovens das periferias. Dessa forma, muitos indivíduos passam a enxergar nas drogas uma alternativa para escapar da exclusão social, evidenciando a negligência estatal diante desse cenário.

Ademais, a insuficiência de políticas públicas eficazes agrava ainda mais essa situação. A psiquiatra Nise da Silveira, ao defender práticas humanizadas no cuidado em saúde mental, criticava abordagens baseadas apenas na repressão. Desse modo, o foco excessivo em ações punitivas, em detrimento de medidas preventivas e terapêuticas no enfrentamento ao crack, reforça o estigma sobre o dependente químico e dificulta sua reinserção social. Assim, a dependência deixa de ser tratada como uma questão de saúde pública.

Por isso, é preciso que o governo federal, em parceria com estados e municípios, invista na educação pública por meio da formação de professores e de projetos de conscientização social, além de ampliar programas de geração de emprego com capacitação profissional e incentivos à contratação, a fim de reduzir desigualdades sociais. Ademais, construir clínicas de tratamento, com equipes profissionais e abordagem humanizada, proporcionaria mais dignidade à população vulnerável. Assim, ao se tratar de Brasil, a ‘‘cegueira branca’’ ficará restrita à ficção.