Caminhos para combater a epidemia de crack no Brasil
Enviada em 24/10/2019
“Bebeu como se fosse náufrago. Flutuou no ar como se fosse pássaro. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego” são os versos da canção “Construção” de Chico Buarque, as quais contemplam a falta de empatia da sociedade para com a morte de um trabalhador, que morreu por se embriagar. Apesar de nesta canção a morte ser pelo consumo de álcool, para o, de crack a abordagem é análoga. Sob esta ótica, é indiscutível as consequências prejudiciais à saúde do ser que o consome, todavia, é inaceitável a indiferença da sociedade para com este, a qual prefere seguir o tráfego, isto é, medidas governamentais como interná-lo involuntariamente, sem entender e questionar os motivos de tal consumo. Assim, é imprescindível a análise de como e porquê ocorre o uso de crack, a fim de combatê-lo, respeitando os direitos de liberdade de escolha do cidadão que resolveu adquiri-lo.
É preciso ressaltar que 80% dos consumidores não são brancos e 40% são moradores de rua. Com base nisso, é visível que a exclusão social exerce uma forte influência sobre a aquisição da droga., visto que os negros, mesmo passado mais de cem anos pós o fim da escravidão pela assinatura da Lei Áurea, continuam marginalizados e socioeconomicamente excluídos. Além disso, 1% dos mais ricos possuem 34 vezes mais que a metade dos mais pobres, segundo IBGE. Assim, ainda sob a ótica da música, Chico escreve as causas de optar pela droga: “Por esse pão para comer. Por esse chão para dormir.” Logo, a desigualdade social, tal como retrata Chico, é, indubitavelmente, um fator para se minimizar, para que se combata o consumo de crack.
Outrossim, Chico também ressalta “pela concessão para sorrir” como sendo uma das causas da ingestão. Assim, nota-se que a sensação de falta de liberdade também é uma das razões para consumir o entorpecente, visto que o sistema capitalista é extremamente autoritário, onde, mesmo quem tem o privilégio de não estar desamparado, precisa seguir padrões “para poder sorrir”. Neste contexto, Machado de Assis escreve em seu livro Quincas Borbas: só os que tem batatas, ou seja, se encaixam no perfil do sistema, têm direito à opinião. Sob essa análise, usar crack seria uma forma de “flutuar como passáro”, já que o sistema obriga o ser a ter batatas, para ser livre. Neste sentido, fica explícito que internar involuntariamente é potencializar a prisão dos esteriótipos que o sistema exige.
Minimizar a desigualdade racial, social e o preconceito é, portanto, uma forma eficiente de combater o consumo do crack. Assim, o Governo Federal deve ampliar as verbas para fomentar programas sociais como Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, a qual amparam o cidadão. Ademais, o Ministério da Educação deve criar um horário de aula semanal, para se refletir sobre o racismo e preconceito, a fim de desenvolver a empatia e extingui-los. Só assim, o ser será livre como pássaro, sem usar o crack.