Caminhos para combater a epidemia de crack no Brasil

Enviada em 20/12/2020

Segundo o filósofo iluminista Jean Jacques Rousseau, o progresso de uma sociedade está intrinsecamente relacionado à autonomia social dos indivíduos que a compõem. No contexto atual, a questão das drogas vai de encontro à máxima de Rousseau, pois o usuário perde a autonomia social e passa a viver apenas em função do vício, gerando desordem e toda uma rede criminosa no entorno. Decerto, o combate à epidemia de crack no Brasil é um desafio considerável, principalmente porque o seu enfrentamento passa não só pela compreensão das múltiplas vertentes do problema, mas também pela superação do preconceito por parte do cidadão médio, que sofre com as suas consequências.

Impende mencionar que a questão do crack no Brasil não é nova. A “cracolândia” de São Paulo já está lá há duas décadas e não é a única. Segundo matéria recente do Portal G1, existem centenas de cracolândias pelo país. A paulista é apenas a mais famosa, e medidas sociais como o Projeto Braços Abertos da gestão do Fernando Haddad tiveram resultados tímidos. Por outro lado, a gestão João Dória atuou de forma bastante repressiva e o resultado foi que os usuários apenas se espalharam para outros locais. Ou seja, a experiência mostra a complexidade do problema, cuja solução precisa passar por várias frentes, com a segurança, a saúde e o social interagindo de complementar e harmônica.

A droga, além de uma questão social, é uma questão de saúde pública. Isso explica porque o número de usuários tem crescido tanto, em consonância com a situação econômico-social do país. Por esse motivo, deve-se encarar o fenômeno como um sintoma de uma doença muito maior. Então, é preciso compreender os fenômenos sociais que impulsionam o consumo, para então atacar a causa do problema. Exatamente pela incompreensão desses fatores, as pessoas tendem a apoiar medidas imediatistas que investem contra o usuário a fim de “limpar” os espaços sociais ocupados, mas terminam por não resolverem nada, apenas aumentando a tensão e o preconceito.

Portanto, o Poder Público precisa intervir não apenas nas consequências do problema, mas focando também em políticas sociais e de saúde que irão atuar nas causas. Para tanto, as Secretarias de Saúde precisam investir em tratamentos eficazes e instalações adequadas, mitigando o aspecto marginalizado desses ambientes. Deve-se priorizar intervenções com a presença de profissionais de saúde, bem como psicólogos e assistentes sociais, para melhor individualização do tratamento, buscando inclusive a participação da família do usuário. É claro que tais ações não invalidariam a participação das Secretarias de Segurança pública, que continuarão intervindo quando necessário. Todavia, instalações adequadas e políticas efetivas de tratamento desestimulariam a atuação do tráfico e os conflitos. O objetivo central certamente seria o resgate da cidadania dessas pessoas, agora roubada pela droga.