Caminhos para combater a epidemia de crack no Brasil

Enviada em 29/05/2021

Na Grécia Antiga, grande parte dos cidadãos gregos praticavam o ócio do ofício, o ato de não se ocupar em nenhuma tarefa, muitas vezes atrelado ao uso de espécimes alucinógenas, utilizado para fins reflexivos e filosóficos. No entanto, diferentemente dessa época, o uso de drogas ilícitas, na atualiade, — embora ainda permaneça ligado à fuga da realidade — é extremamente nocivo ao indivíduo e a sua convivência em sociedade, ao passo que, no Brasil, encontra-se uma enorme dificuldade em se combater a epidemia de crack. Desse modo, tal problemática vê-se refletida não só na centralização das instituições sociais nas cidades, mas também, por cosseguinte, na banalização do problema.

A princípio, a negligência governamental para com as zonas periféricas é danosa à sociabilidade e à qualidade de vida desses locais, visto que, ao não proporcionar um ambiente suficientemente amparado socialmente, acaba-se por marginalizá-lo. Sob essa perspectiva,  tal situação configura-se como uma ruptura no contrato social, de acordo com o filósofo inglês John Locke, uma vez que o Estado é negligente a sua função de garantir os direitos inalienáveis aos cidadãos, tais como a moradia e a saúde. Dessa forma, percebe-se que, conforme seja feita a descentralidade dos aparatos sociais, serão solucionadas, gradativamente as desigualdades sociais, tão evidenciadas, sobretudo pela ótica do contexto do crack no país — sendo a Cracolândia, em São Paulo, como principal prova disso.

Ademais, consequentemente, a indiferença do governo para com essa condição reflete-se na própria sociedade, essencialmente nos próprios indivíduos que a compôe, à proporção que existe-se uma naturalização, extremamente negativa, dessa adversidade. Nesse sentido, segundo o sociológo francês Pierre Bourdieu, tal conjuntura pode ser identificada como uma violência simbólica, intensamente pior do que a agressão física, exatamente porque não se tem uma dimensão real da magnitude do problema, principalmente pela banalização dele, de forma a não ter como evitá-lo — corroborando para a sua permanência e dificultando o seu combate, ao deixá-lo no limbo do desprezo.

Portanto, para a resolução dessa adversidade, faz-se mister a ação do Poder Público, na condição de prefeitura, por meio de reformas estruturais no modelo de organização do meio urbano, ao fazer a descentralização da máquina pública e dos estabelecimentos privados, dos centros hospitalares e das clínicas de reabilitação — de maneira a trazê-los do centro para a periferia — a fim de promover mais notoriedade a essas regiões, além de propiciar mais investimentos a esses locais, justamente pelo fato de os órgãos adminitrativos e sociais estarem mais próximos da realidade vivida pelos afetados. Assim, tornar-se-á possível combater a epidemia de crack no Brasil, na medida em que o foco para o problema seja resolvido: a marginalização.