Caminhos para combater a violência obstétrica no Brasil
Enviada em 30/08/2024
Em seu livro “As mentiras de Locke Lamora”, Scott Lynch narra a história de um garoto que cresceu em uma sociedade marcada pelo descaso mútuo e pela falta de solidariedade entre os indivíduos. Analogamente, a falta de empatia e respeito à dignidade alheia atinge até mesmo a área da obstretria no Brasil, que culmina na violência exercida por médicos em relação a pacientes. Tal revés decorre de uma mentalidade geral marcada pela falta de ética e cidadania e da inércia estatal.
Nesse contexto, é notório que a mentalidade comum da sociedade brasileira, pautada pela falta de educação cívica exemplar, penetra os diferentes níveis sociais e influencia o comportamento nefasto de muitos médicos. Acerca disso, Simone Beauvoir afirma que comportamentos hostis praticados em massa tendem a ser aceitos. Sob este viés, as opiniões e comportamentos que reverberam na socieda-de brasileira, nos diferentes níveis de escolaridade, são construídos na ausência de uma construção cidadã e cívica que reforce os direitos e a dignidade humana. Dessa forma, obstetras formados detém o conhecimento técnico, porém carecem de formação humanitária e perpetuam a prática a violência contra pacientes.
Ademais, a ausência de ações estatais contribuem para a perpetuação deste tipo de violência. Nesse sentido, Michel Focault reforça o papel estatal de garantir o bem-estar dos cidadãos por meio da repressão de atos que violem a esfera indivi-dual. Entretanto, a integridade física e psicológica das gestantes não está entre as prioridades da esfera administrativa, uma vez que, de acordo com a Superinteres-sante, centenas de casos de agressões envolvendo xingamentos, tapas e assédio sexual foram divulgados nas redes sociais nos últimos anos. Tudo isso, segundo a BBC Brasil, gera traumas às grávidas que, somados a desequilibrios homonais ca-racterísticos do período de gravidez, podem induzir à automutilação e ao suicídio.
Portanto, urge a necessidade de ação estatal. Logo, cabe ao Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação elaborar campanhas de educa-ção humanitária nas faculdades de medicina. Tais campanhas devem contar com a participação de filósofos, sociólogos e juristas e focar na instrução do modo ético de agir dos médicos em ambiente de trabalho, bem como nas sanções em relação aos comportamentos hostis. Dessa forma, um Brasil mais cívico será construído.