Caminhos para evitar que o Brasil volte ao mapa da fome

Enviada em 04/06/2020

Graciliano Ramos, em sua obra ‘‘Vidas Secas’’, retrata a impiedosa caminhada de vida enfrentada por Sinhá Vitória, Fabiano e seus filhos, uma família sertaneja submetida à extrema miséria e vulnerabilidade. Fora da ficção, esse livro é uma representação do cenário de fome vivenciado pelo Brasil,  fato que é proveniente de uma distribuição de renda antidemocrática, alicerçado à cultura individualista vigente. Logo, deve-se engendrar meios capazes de impedir a transgressão de direitos sociais básicos.

É preciso perceber, inicialmente, que a concentração de renda e fundiária são bases da sociedade brasileira, devido à construção histórica que prioriza interesses oligárquicos, em detrimento dos sociais. Nesse sentido, o geógrafo Milton Santos, em seu documentário ‘‘O mundo global visto do lado de cá’’, descreve as contradições da globalização sob a perspectiva da pobreza, estruturada em estratificações econômicas injustas e, sobretudo, contrárias à dignidade humana. De fato, a persistência da miséria torna evidente que o equilíbrio macroeconômico, embora seja importante, é insuficiente para acabar com a miséria. Um relatório realizado pela ONU aponta que o Brasil tem a segunda maior desigualdade de renda do mundo, sendo que tal realidade é acentuada, conjuntamente, pelas tentativas de escamoteação do problema. Desse modo, é necessário criar medidas capazes de efetivar o princípio da isonomia.

Cabe reconhecer, ainda, que o filósofo Thomas Hobbes, ao afirmar que ‘‘o homem é o lobo do homem’’, reflete sobre a tendência humana em desenvolver o egoísmo para garantir seus próprios interesses. Nessa direção, observa-se que a sociedade hipermoderna, conquanto tecnológica e informacional, é permeada por uma indiferença sistêmica. Exemplo disso é a existência de inúmeras entidades de combate à fome, como a Ação da Cidadania, subjugadas à invisibilidade e, por outro lado, indivíduos que gastam milhares em um único bem material. Tal configuração retoma à teoria hobbesiana: o ser humano em sua essência, ativando o modo egocêntrico de viver. Dessa maneira, é essencial estabelecer caminhos para alterar essa lógica perversa.

Compreende-se, destarte, que moldes sociais iníquos acentuam o problema da fome no Brasil. Portanto, o Ministério do Trabalho, em conjunto com o da Agricultura e Cidadania, deve promover a geração de renda e emprego. Essa ação pode ser feita por meio da formulação de diretrizes, tais como alocação de recursos para a qualificação profissional do cidadão, ampliação de políticas assistencialistas e suporte financeiro à agricultura familiar, com o intuito de democratizar a qualidade de vida e combater contextos desiguais. Ademais, à mídia, por via do discurso ficcional, cabe incluir abordagens sobre empatia nos filmes e novelas, bem como disseminar campanhas divulgando ONG’s de combate à subnutrição. Assim, será possível o contexto evidenciado por Graciliano Ramos se torne menos evidente no território nacional.