Caminhos para evitar que o Brasil volte ao mapa da fome
Enviada em 02/05/2021
No poema “Morte e Vida Severina”, o escritor João Cabral de Melo Neto versa a respeito de diversos problemas sociais que adoeciam o Brasil durante o século XX. Na obra, o percurso de morte e vida do retirante Severino representa, alegoricamente, uma crítica à sociedade brasileira que, mesmo sendo uma forte produtora de commodities no cenário internacional, perpetuava a fome e outras faltas socias na vida cotidiana de grande fração popular internamente. No século XXI, lamentavelmente, as bases históricas desse sistema opressor ameaçam o retorno do país ao mapa da fome, o que faz com que se debruçar sobre alternativas ao problema, nos campos político e tecnológico, seja, no mínimo, essencial.
Para que o Brasil supere, a princípio, a tragédia da fome, deve-se reconhecer que a mobilização política é um passo indispensável. Isso porque, assim como defende Josué de Castro, cientista social, em seu livro “Geografia da Fome”, a carência alimentar que assombra milhões de brasileiros é, sem dúvida, um reflexo direto da falta de vontade política para mobilizar os recursos necessários a favor dos que têm fome. A partir dessa visão, é evidente que a volta do Brasil ao mapa da fome representaria muito mais a resultante de um pensamento predominantemente elitista que mercantiliza produtos essenciais, segregando os que não têm poder aquisitivo, do que, de fato, uma suposta incapacidade logística. Por isso, o ato de enfrentar a fome brasileira requer, antes de tudo, o despertar de uma responsabilidade política que foi, historicamente, adormecida.
Ademais, a tecnologia de manuseio e transporte de alimentos do Brasil também é um caminho a ser aprimorado para que o país se distancie do mapa da fome. Com efeito, essa seria uma estratégia eficaz e capaz de reduzir a taxa de descarte e, consequentemente, de tornar os alimentos mais acessíveis à população de baixa renda. Paralelamente, o Brasil estaria, também, contribuindo com as matrizes da sustentabilidade, visto que uma nação que desperdiça menos alimentos economiza recursos naturais e melhora a qualidade de vida de sua população. Afinal, segundo a ONU, o Brasil será o maior produtor alimentar do mundo até 2025, logo, urge o aproveitamento de tal título para que ninguém passe fome.
Portanto, impedir a regressão brasileira ao mapa da fome se faz um ato urgente. Dessarte, o Poder Executivo Federal, representado pelo Ministério da Economia, deve engajar o Executivo Municipal no combate à fome e as Universidades Federais no estudo do aprimoramento do abastecimento alimentar. Isso pode ser feito por meio de estímulos a um projeto municipal de combate à fome, que garanta descontos e isenções a famílias baixa renda na compra de alimentos, por exemplo, e de direcionamento de subsídios a essa área de pesquisa universitária. Assim, a mobilização política e tecnológica impedirá que a realidade de Severino continue a estar presente na vida dos cidadãos brasileiros do século XXI.