Causas e consequências da dependência digital dos jovens na contemporaneidade

Enviada em 31/12/2020

O documentário norte-americano “O Dilema das Redes”, lançado em setembro de 2020 na Netflix, apresenta uma análise dos mecanismos criados e incorporados por empresas da área tecnológica, visando maximizar o tempo de experiência e engajamento dos usuários em seus canais, criando, assim, uma relação de dependência entre as partes. Nessa perspectiva, é urgente que se discutam os produtos da interferência do meio eletrônico na formação pessoal dos jovens, uma vez que as sementes plantadas por essa problemática serão colhidas no futuro da sociedade.

Em primeiro plano, a imaturidade emocional das crianças e dos adolescentes dificulta o processo de  reconhecimento das mazelas causadas pela sujeição ao meio digital. De acordo com uma pesquisa publicada pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), em que foram avaliados mais de 200 estudantes de escolas públicas e privadas, a parcela de alunos considerados dependentes das redes sociais apresentou maior prejuízo no desempenho em áreas físicas, sociais, sentimentais e escolares. Nesse sentido, a manipulação promovida por aplicativos e dispositivos eletrônicos, como demonstrado no documentário mencionado, ao atingir o nível de sobrecarga e vício, prejudica a formação da personalidade dessa parcela populacional, restringindo-a a um contexto limitado e a uma experiência social superficial e distante de dinâmicas físicas e interpessoais.

Em segundo plano, e em concordância com o supracitado, outro fator é importante para a manutenção do vínculo vicioso entre os jovens e os canais digitais: o desenvolvimento de uma ansiedade generalizada e um temperamento instável. Segundo uma reportagem do jornal “Estadão”, alguns pais entrevistados na cidade de São Paulo, ao tentarem limitar o acesso às redes e aos jogos online, viram-se forçados, em razão do aumento na instabilidade e agressividade dos seus filhos, a procurar auxílio do grupo de dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas da Universidade de São Paulo. O descontrole emocional em questão é reflexo direto da urgência do tema, já que introduz um desequilíbrio comportamental em um nicho da sociedade que depende de suporte externo para seu desenvolvimento pleno e para sua estabilidade no coletivo.

Infere-se, portanto, que debater acerca dos frutos da dependência tecnológica é, também, discutir o futuro da dinâmica das comunidades. Dessa maneira, urge que o Ministério da Saúde promova palestras acerca do tema, por meio das instituições municipais, a fim de instruir e afirmar o papel essencial da família no contexto de proteção e prevenção dos danos psicológicos causados nos jovens em questão. Além disso, é fundamental que o referido Ministério fomente a pesquisa científica na área comportamental, dado que as sequelas das ferramentas digitais permeiam o corpo social.