Causas e consequências da dependência em jogos de apostas on-line
Enviada em 19/10/2026
A popularização da internet no Brasil democratizou o acesso à informação, mas também converteu o celular em uma cassino de bolso. A ascensão das apostas on-line, impulsionada por influênciadores e pela promessa de renda extra, revela mais do que uma escolha individual: expõe a fragilidade da regulamentação digital. Longe de ser um simples entretenimento,a prática tem produzido dependência, ruína financeira e desintegração de laços familiares.
O principal fator para esse cenário é a construção deliberada da ilusão. Como mostrou investigação da delegacia de Estelionatos de Alagoas, divulgadores do “jogo do tigrinho” utilizam uma conta demonstrativa, na qual o ganho é programado, para criar o seguidor a expectativa de lucro fácil. Essa estratégia, veiculada em redes sociais com estética colorida e infantil, atinge sobretudo jovens de 16 a 24 anos, faixa que segundo o datafolha mais aposta no Brasil.
As consequências desse mecanismo extrapolam o campo financeiro. O comprometimento de cerca de 20% do salário mínimo, relatado por apostadores, gera endividamento, recurso a agiotas e conflitos domésticos. O relato de uma pessoa de 27 anos , que enviou o filho para outro Estado após acumular dividas e tentar suicídio, ilustra como a ludopatia deixa de ser problema de consumo e se torna questão de saúde mental. Grupos que recebem novos integrantes evidência que o sofrimento não se restringe ao apostador, mas se estende a família que convive com ansiedade, a culpa a quebra de confiança.
Diante disso, é ingênuo tratar a dependência em apostas como falta de autocontrole. Trata-se de um mercado que lucra justamente da desinformação e da vulnerabilidade social. Enquanto a lógica do dinheiro fácil continua sendo vendida como lazer inofensivo, o Brasil seguirá assistindo à transformação de projetos de vida, sendo perdidas através de apostas perdidas na tela do celular.