Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 21/09/2019
Sob a perspectiva filosófica de Jean-Paul Sartre, o ser humano está condenado a ser livre e, portanto, é responsável por suas escolhas. Nesse sentido, a decisão de automedicação com base em dados obtidos por meio da internet é de inteira responsabilidade do paciente. No que se refere ao crescimento da “cibercondria”, é evidente que a facilidade de acesso à informação farmacológica e o sistema precário de saúde incentivam essa prática irresponsável.
Em uma primeira análise, sob a ótica sociológica, observa-se, nos dias atuais, um forte crescimento do mundo digital. Nessa perspectiva, a internet detém inúmeros conteúdos, o que criou o ambiente perfeito para as pessoas pesquisarem sobre assuntos que não dominam. Segundo pesquisas do Google, cerca de 61% dos americanos adultos pesquisam sobre saúde em sua página de busca, sendo assim, nota-se que essas informações induzem o indivíduo à se automedicar e não buscar o atendimento especializado. Nessa caótica conjuntura, há a possibilidade do agravamento de casos clínicos ou o desenvolvimento da hipocondria- distúrbio na qual a pessoa acredita possuir inúmeras enfermidades ao pesquisar os sintomas. Dessa forma, o fácil acesso tecnológico promove o aumento de uma cultura de autodiagnóstico e desenvolvimento de paranoias sociais.
Ademais, vale ainda ressaltar que os hospitais públicos estão superlotados, sendo preciso esperar horas pelo atendimento. Nesse contexto, as pessoas que sofrem de dores que podem ser resolvidas com analgésicos preferem adquirir o medicamento por conta própria nas farmácias. Essa atitude é reflexo da negligência Estatal em garantir os direitos básicos de saúde, resultando em ações precipitadas para resolver problemas fisiológicos. A internet surge, nesse momento, como o novo médico da era moderna, na qual uma rápida pesquisa mostra como tratar a enfermidade. Contudo, não há garantia do diagnóstico e o indivíduo fica refém de possíveis complicações, sendo preciso ir ao hospital para melhorar, mesmo que este não detenha uma boa infraestrutura.
Torna-se evidente, portanto, que a cibercondria é um fenômeno da era digital e está relacionada com a facilidade de acesso e problemas estruturais dos ambulatórios. Para reverter esse quadro é preciso que os Governos locais trabalhem em conjunto com empresas de pesquisa, como o Google, para alertar as pessoas sobre os riscos do autodiagnóstico. Através de avisos nas páginas ao se detectar buscas ligadas à doenças e medicamentos, por meio desse alarme, espera-se que o indivíduo busque a ajuda adequada e se encaminhe para o hospital mais próximo. Além disso, é preciso reestruturar os serviços de saúde, para que fiquem mais eficientes e sejam capazes de atender a todos os pacientes. Dessa maneira, o ser humano terá a escolha consciente de tratar seus sintomas.