Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 07/10/2019

Em meados de 4 a.C, Hipócrates, o pai da medicina, já realizava os primeiros estudos sobre a hipocondria, transtorno que leva um indivíduo a sentir uma preocupação exacerbada por seu estado de saúde, inicialmente associando tal doença psicossomática à melancolia. Hodiernamente, órgãos de saúde pública no Brasil e também no mundo vêm enfrentando grandes desafios no combate ao transtorno que hoje é denominado “cibercondria” na era digital, pois com a carência de serviços de saúde de qualidade somada à facilidade no acesso à informação que os meios digitais oferecem, o indivíduo passou a sentir autonomia para realizar o próprio diagnóstico após rápidas buscas na internet.

Em primeiro lugar, é possível compreender que parte do problema no Brasil explica-se pela ineficácia do sistema de saúde público, pois este por vezes não atende completamente as necessidades do cidadão, que para evitar longas filas e atendimentos demorados, opta por buscar diagnósticos pela internet, realizando até mesmo a automedicação e tratamentos alternativos. A exemplo disso, dados levantados pelo Estadão mostram que o Brasil lidera o ranking de aumento das pesquisas por temas de saúde no Google, isto é,  cerca de 26% dos brasileiros recorre à web para evitar o transtorno cansativo de realizar uma consulta com um profissional de saúde, enquanto em países que oferecem bons sistemas públicos esse número não é tão expressivo.

Em segundo lugar, o hábito supracitado causa preocupação em comunidades médicas, uma vez que são altos os riscos de que o diagnóstico encontrado seja errôneo. Assim sendo, uma pesquisa realizada pelo portal Uol em 2017 mostrou que ao buscar por resultados para uma possível “tosse”, por exemplo, mais de 50 diagnósticos diferentes sem comprovação científica são obtidos. Ademais, a falta de credibilidade em informações oferecidas na web é criticada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, pois para ele, “o Google tem a maior biblioteca de informações do mundo, mas as oferece de maneira desconectada e não segura”, isto é, aplicando-se ao caso, o diagnóstico que serve para um usuário, pode não ter o mesmo efeito para o outro, colocando em risco a saúde do indivíduo ao tentar seguí-lo.

Em suma, faz-se imprescindível a tomada de medidas atenuantes ao entrave abordado. Posto isso, concerne ao Estado, mediante o Ministério da Saúde, a criação de uma parceria dos hospitais com sites de saúde na web de modo a elucidar o usuário quanto aos riscos de se autodiagnosticar e à necessidade de buscar por atendimento médico profissional. Tal projeto deve ser instrumentalizado por meio do compartilhamento de informações confiáveis oriundas de hospitais para os sites, oferecendo ao usuário diagnósticos mais confiáveis realizados por médicos e enfermeiros, objetivando o controle de informações disseminadas na web e incentivando a busca por ajuda profissional.