Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 05/10/2019
No filme Then Came You, o jovem Kevin é hipocondríaco e sofre diariamente com o seu medo de ser acometido por uma doença fatal, por mais que esteja em plena saúde, o que acaba por levá-lo a desistir da faculdade e a uma vida restrita de emoções. Fora da ficção, a população, principalmente os mais jovens, sofre com uma variação do mesmo problema: a cibercondria. O constante terror gerado pelos resultados hiperbólicos dos mecanismos de busca leva a consequências como a automedicação e a desvalorização do sistema de saúde.
Em primeiro plano, a confiança atribuída às diagnosticações “online” leva as pessoas a uma automedicação que pode colocar sua saúde em risco. Ao fazer uso de um remédio sem o aconselhamento devido, o suposto enfermo pode mascarar os verdadeiros sintomas pelos quais é afetado. Sendo assim, uma doença grave e real pode não ser detectada devido a essa prática, que já é costume de quase 80% dos brasileiros com mais de 16 anos, de acordo com o Instituto de Pós-Graduação para Profissionais do Mercado Farmacêutico.
Ademais, a popularização dessas “consultas online” leva a uma negligência do acesso a saúde. De acordo com o pensador Marshall McLuhan, “o homem cria as ferramentas, e as ferramentas recriam o homem”. Sob essa perspectiva, enquanto há poucos anos atrás o acesso a esse direito básico era uma das prioridades dos brasileiros, hoje é procurado em última instância, quando nenhum dos “tratamentos” obtidos através de buscadores traz resultado, o que reforça a afirmação de McLuhan.
Por conseguinte, é necessário que o Estado, em parceria com a sociedade civil, atue de forma a amenizar o quadro atual. Para diminuir o risco ao qual a população está submetida, o Ministério da Saúde deve investir, por meio de verbas governamentais, em campanhas midiáticas que conscientizem os brasileiros sobre a importância da consulta com um profissional da área, além de melhorar a infraestrutura e o planejamento dos hospitais e postos de saúde, para, assim, facilitar o acesso de todos. Além disso, a mídia deve atuar por meio da representação da problemática em plataformas de grande repercussão entre os mais novos, como é o caso das novelas e dos seriados. Dessa forma, as pessoas poderão, como Kevin, experienciar os prazeres da vida sem tanto medo de algo meramente ilusório.