Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 07/10/2019
Na Grécia Antiga, fazia parte da cultura popular a consulta ao Oráculo de Delfos quando se desejava obter respostas acerca de questões cotidianas e existenciais. Analogamente ao que ocorria no passado, hoje, faz-se uso da internet como local de solução para questionamentos humanos, fato que tem trazido não apenas benefícios, mas também problemas de saúde pública figurados pela automedicação e autodiagnóstico, consequências da democratização da informação sem o devido controle e do precário aparato governamental no que tange ao cenário brasileiro.
Em primeiro plano, a facilidade do acesso a informações não confiáveis e sem especificidades garante que pessoas desejosas por diagnósticos rápidos e tratamentos financeiramente rentáveis corram sérios riscos de vida. Quando o sociólogo Émile Durkheim declara que uma sociedade de sucesso comporta-se como um corpo vivo, defende uma divisão social do trabalho, na qual os indivíduos dividem responsabilidades em prol do bem coletivo. Isso, no entanto, não tem se efetivado na realidade, tendo em vista que especialistas como médicos e nutricionistas são substituídos por páginas pseudocientíficas que generalizam, negligenciam ou sensacionalizam dados cruciais para a resolução de casos. Dessa forma, percebe-se a falta de uma educação crítica quanto ao uso das redes digitais.
Outrossim, a funesta condição do sistema de saúde pública no Brasil representa um grande empecilho a quem deseja realizar um real acompanhamento profissional. A morosidade das listas de espera em hospitais e a falta de médicos são algumas das dificuldades enfrentadas pela sociedade no país, quadro de total anomia ao que postulavam os Contratualistas do século XVIII, defensores de um Estado que garante e mantêm os direitos dos cidadãos, nos quais o bem-estar físico e mental inclui-se. Logo, é inaceitável que diante de tantos impostos, os brasileiros ainda encontrem-se em tamanha mazela.
É necessário, portanto, que medidas sejam tomadas para atenuar a “Cibercondria”, essa estrutural doença da era digital. A fim de orientar e esclarecer a população acerca dos riscos da busca por mitigar sintomas a partir da internet, o Ministério da Saúde deve criar uma campanha nacional de alerta, por meio do uso das mídias como redes sociais e televisão, com transmissões em horário nobre. Ademais, a União deve investir e fiscalizar mais rigorosamente o sistema único de saúde (SUS), através da mobilização de setores administrativos. Assim, tornar-se-á mais fácil alcançar o status de sociedade idealizado por Durkheim.