Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 07/10/2019

A cibercondria pode ser definida como a associação entre a hipocondria (obsessão sobre o próprio estado de saúde acompanhada ou não de sintomas de ordem psicológica ou física) com o excesso de informação do mundo virtual. Dada a enorme influência deste último na sociedade atual, a primeira sofreu uma perigosa reformulação e é hoje fonte de grande preocupação. Fruto indigesto da disseminação e acesso irrestrito à informação e agravada pela falta de regulamentação, tal prática deve ser estatizada, de modo a melhorar a qualidade e quantidade dos dados liberados ao público.

A condição é um resultado da associação de vários componentes da vida moderna, sendo os principais o egocentrismo intrínseco da sociedade atual, a ansiedade que aprofunda a obsessão por si próprio e o acesso ilimitado a qualquer tipo de informação. Em um momento em que não existe mais a legitimação de fontes e qualquer um tem o poder de publicar suas verdades, bem como pesquisá-las, a descrição de doenças não poderia sair ilesa. É simples conseguir um ou vários diagnósticos com base na descrição de sintomas, mas ao contrário das rebuscadas técnicas diagnósticas que assessoram a medicina, os fóruns virtuais fazem pouco além da anamnese destituída de conhecimento sólido e, principalmente, imparcialidade.

Outra causa importante é a falta de regulação desse tipo de debate, haja vista a natureza libertária do cenário virtual. São os próprios usuários que contribuem e consomem as (des)informações, com o agravante da inevitável transferência para o mundo real. Assim, esse tipo de “consulta” possui grandes chances de gerar confusão, intensificação do estado de hiper-reatividade dos “pacientes”, piorando o suposto caso clínico e dificultando o correto diagnóstico, bem como a aderência ao tratamento. Aumenta também a sensação de falta de confiança que experienciam essas pessoas habituadas ao excesso de dados encontrados na internet, o que fortemente diverge da postura comedida e cautelosa característica dos médicos.

Por isso, considerando-se a abrangência da situação e a pouca efetividade de proibições no meio virtual, é importante tomar controle sobre a prática em lugar de apenas tentar inibi-la. O Ministério da Saúde, junto às mídias e iniciativa privada deve criar portais de esclarecimentos médicos em plataformas como Youtube e televisão. Tais portais veiculariam dados apropriados ao público, direcionando-o ao cuidado da saúde via consultas médicas e exames diagnósticos. É importante também ofertar um serviço de atenção que leve em conta a condição naturalmente ansiosa e apreensiva dessas pessoas, mantendo fóruns de debates oficiais, evitando a disseminação de conhecimento e práticas irregulares entre a população brasileira.