Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 26/09/2019

O filme “Óleo de Lourenzo” conta a história de um menino portador de Adrenoleucodistrofia, cujo tratamento foi proposto pelos pais da criança, com fundamento científico. Apesar de raras contribuições, sabe-se que parte da sociedade tem recorrido erroneamente a tratamentos orientados com o auxílio da internet, fenômeno denominado de cibercondria. Sob tal ótica, essa prática inaceitável está associada à hipocondria, bem como ao acesso a medicamentos sem prescrição médica.

Segundo o filósofo estoicista Sêneca, “é parte da cura o desejo de ser curado”. Nessa lógica, o impulso natural pela cura de doenças tem feito com que parte da população negligencie a devida orientação médica, já que há uma cultura da automedicação instalada na sociedade. De acordo com o Conselho Federal de Farmácia, a hipocondria atinge quase 80% da população brasileira atualmente. No contexto da cibercondria, pode-se dizer que a busca irracional por um diagnóstico prático, resultado das facilidades da internet, tem feito com que o público vincule o autodiagnóstico ao uso irregular de remédios. Dessa forma, a internet tem tido um efeito negativo no controle da saúde da população.

Outrossim, vale ressaltar que, atualmente, alguns medicamentos tem se enquadrado na categoria de “isentos de prescrição” (os MIP’s), ou seja, que não necessitam de recomendação medica para serem administrados. Segundo reportagem da NYTimes, remédios nesta categoria possuem diversos riscos a saúde, como interações droga-alimento, além de reações alérgicas. No contexto da cibercondria, a facilidade em se encontrar remédios disponíveis no mercado farmacêutico que podem ser adquiridos sem receita médica estimula alternativas ao diagnóstico e tratamento tradicionais, condição inaceitável para a garantia da qualidade de vida da sociedade. Evidencia-se, portanto, a sinergia entre informação e o fácil acesso a medicamentos, associação prejudicial à saúde pública.

Em suma, com intuito de mitigar o problema, seria viável o foco no controle da venda de remédios, já que o controle de informações na internet torna-se impraticável, pois o conteúdo é protegido constitucionalmente pela liberdade de expressão. Assim sendo, cabe à sociedade civil organizada propor uma sugestão legislativa através da Comissão de Legislação Participativa, com o intuito de alterar ao texto da lei 5991/73, que versa sobre o controle de medicamentos. O novo texto aumentaria a restrição da venda de remédios MIP, a fim de dificultar a prática da hipocondria. Ademais, cabe ao Executivo Federal investir em publicidade associada aos efeitos nocivos da automedicação em casos concretos, através de informações expostas nas caixas dos medicamentos, assim como já é realizado na indústria do cigarro. O intuito seria de desencorajar o cidadão da pratica da automedicação. Enfim, a partir dessas ações pode-se esperar um efeito pronunciável no combate a cibercondria.