Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 19/03/2020
O documentário americano “Take Your Pills” retrata o aumento do consumo, até mesmo sem indicação clínica, de neuroestimulantes para auxiliar no rendimento das atividades cotidianas e evidencia a irresponsabilidade da comercialização banalizada dos fármacos. Apresentando-se como retrato social, no contexto da cibercondria, o autodiagnóstico e a automedicação são consequências de um sistema falho de saúde e do comportamento imediatista da sociedade contemporânea.
Em primeiro plano, observa-se que a cibercondria é resultado da inacessibilidade a um sistema de saúde eficiente. Nesse sentido, considerando as alternativas de instituições privadas, os valores para adesão de planos de saúde e para o atendimento particular são elevados e dificultam o acesso da população de baixa renda no Brasil. Ademais, apesar da oferta de um sistema público de saúde, ainda é possível observar o longo tempo de espera, escassez de profissionais capacitados e uma estrutura deficiente para prestar um serviço de qualidade. Com efeito, o indivíduo procura uma alternativa mais rápida por meio de buscas online e consolida o comportamento irresponsável da automedicação.
Além disso, entende-se que a automedicação é fortalecida pelo imediatismo e pela mercantilização da saúde. Isso porque, na atual era tecnológica, o fluxo crescente e a facilidade de acesso às informações nas plataformas online levam à procura irresponsável do autodiagnostico e do consumo de medicamentos errados e/ou em excesso. Outrossim, é comum a propaganda de fármacos prometendo a cura rápida e milagrosa para as doenças independente da etiologia e, muitas vezes, os pacientes abandonam o tratamento proposto pelo profissional capacitado por acreditarem nos benefícios dos medicamentos comercializados sem comprovação científica da sua eficiência.
Portanto, cabe ao Poder Público assegurar políticas públicas eficientes para combater a cibercondria, por meio da capacitação do sistema público de saúde e, também, garantir a redução dos valores abusivos praticados pelas empresas privadas. Além disso, incentivar a criação de clínicas populares para fortalecer a segurança da população de baixa renda na procura por assistência médica capacitada, a fim de reduzir a busca de autodiagnostico no meio virtual. Ademais, cabe, ainda, ao Estado a implantação de leis acerca da comercialização de fármacos na internet sem a prescrição médica, com o objetivo de reduzir a automedicação.