Cibercondria: a doença da era digital
Enviada em 27/05/2020
A popularização da internet consolidou a era digital, o que proporcionou, por sua vez, o aumento do acesso a informação. Contudo, apesar dos diversos benefícios, a rede também alterou a magnitude de problemáticas preexistentes, como a hipocondria, uma afecção mental que é objeto de estudo da psiquiatria desde o século XIX. Nessa perspectiva, cabe averiguar a função da internet no ciclo hipocondríaco e as potenciais complicações do mau uso dessa ferramenta pelos afetados.
Em primeiro lugar, observa-se que a abundância de conteúdo das mídias digitais é fator determinante para o agravamento desse transtorno de ansiedade, uma vez que nutre a constante inquietação em relação à saúde. O acometido, que ora manifesta preocupações inexplicáveis, ora apresenta sintomas que não se enquadram como qualquer outra doença, preenche essas lacunas na internet, dado que ela certamente possui no mínimo um diagnóstico com o qual ele se identificará. Outrora, em “Estudos sobre a Histeria”, Freud descreveu o hipocondríaco como alguém que pensa ser a língua pobre demais para pintar suas sensações, porém, sabe-se, hoje, que a rede é rica o suficiente para tal. Em outros termos, o acervo digital pode retroalimentar o ciclo patológico, porquanto incita as convicções do cibercondríaco de que há algo errado com sua saúde.
Ademais, o uso equivocado dessa ferramenta pode fomentar graves consequências, tendo em vista que a relação médico-paciente transformou-se numa relação médico-internet-paciente. Isto é, apesar de benéfico para a sociedade em geral, o amplo acesso a informação para a pessoa com medo ilógico de doença não traz tantas vantagens, pois as constantes pesquisas estimulam o ceticismo e questionamento da opinião médica. Nesse âmbito, a insatisfação frente ao diagnóstico médico resulta na procura de diversos outros médicos, exposição a procedimentos invasivos e desnecessários e até na automedicação, pois já que os médicos não dão credibilidade, ele age baseado nas suas pesquisas online. Quer dizer, a internet tem intensificado os sintomas e implicações do transtorno, ao passo que tem estimulado a inquietação do cibercondríaco, tornando-o propício à outros problemas graves.
Logo, tendo em vista o agravamento do transtorno hipocondríaco na era digital, cabe ao Ministério da Saúde realizar o controle dessa doença na sociedade. Para isso, primeiramente, deve-se investir na identificação, diagnóstico e tratamento dos portadores, pois faz-se necessário delimitar o público-alvo. Em seguida, deve criar um projeto de certificação, a fim indicar para a comunidade, através de selos, os sites com informações de saúde confiáveis. Por fim, também é necessário divulgar na mídia propagandas que conscientizem sobre a existência, importância de tratar e prevenir o distúrbio. Desse modo, a cibercondria terá a devida atenção e a sociedade viverá melhor os benefícios da era digital.