Cibercondria: a doença da era digital

Enviada em 19/06/2020

“O importante não é viver, mas viver bem”. Segundo o filósofo Platão, a qualidade de vida tem tamanha importância, de modo que ultrapassa a da própria existência. Entretanto, essa não é a realidade dos indivíduos que sofrem com as consequências da Cibercondria, as quais prejudicam muito a qualidade de vida das pessoas, pois as deixam -dentre outras sequelas- ansiosas, aflitas e angustiadas. Esse cenário é fruto tanto da negligência estatal, quanto da cultura associada à automedicação. Diante disso, cabe analisar os fatores que favorecem esse quadro.

Precipuamente, é essencial pontuar que a negligência estatal contribui com a problemática. Segundo a Constituição Federal do Brasil, o Estado tem a obrigação, por Lei, de oferecer acesso à saúde, porém, ele falha nesse aspecto. Essa negligência se mostra claramente nas filas enormes de hospitais e postos de saúde, na falta de médicos, no difícil acesso à consultas, dentre outros. Esses fatores levam o indivíduo à automedicação -“solução mais fácil e rápida”.  Desse modo, fica evidente que a negligência do Estado corrobora para o impasse.

Ademais, é imperativo ressaltar a cultura associada à automedicação, na sociedade brasileira, como promotora do problema. Partindo desse pressuposto, os primeiros médicos do Brasil começaram a se formar no século XIX, após a chegada da Família Real, quadro considerado recente comparado a outros países. A partir disso, vê-se que desde muito antes desse fato o Brasil já tinha incorporado em sua cultura a utilização de chás, ervas e outros elementos - tidos como medicinais-, por intermédio de curandeiros, rezadeiras e boticários. Assim, a sociedade brasileira vem com esse hábito de automedicar-se desde muito tempo, o que se reflete até nos dias atuais. Com isso, evidencia-se que a cultura atrelada à automedicação contribui para a perpetuação desse quadro deletério.

Portanto, é imprescindível uma tomada de medidas para que a Cibercondria deixe de ser a doença da era digital e cesse. Dessarte, para mitigar a negligência do Estado, o Ministério Público deve direcionar mais capital para o sistema público de saúde, o qual irá permitir a construção de novos hospitais, postos de saúde e a contratação de mais profissionais da área. Essa iniciativa teria a finalidade de facilitar e melhorar o acesso à saúde pública, e, consequentemente, atrair os indivíduos para este sistema, os quais usufruirão de atendimento qualificado e correto. Além disso, para atenuar a cultura da automedicação, o Estado poderia investir em campanhas publicitárias na mídia -rádio, televisão e internet- voltadas para a conscientização dos cidadãos sobre os riscos de automedicar-se, a fim de que  as pessoas parem de tomar remédios por conta própria. Só assim, a realidade dos indivíduos que sofrem com as consequências da Cibercondria se aproximará da descrita por Platão.